Sim, há coisas positivas sobre a covid-19

O professor e mestre em Literatura Sergio Marcone da Silva Santos analisa no IPIAÚ ONLINE que lições podem ser tiradas desta pandemia que tem tirado o sono da humanidade.

Leitura importante em tempos de aflição. Confira:

Estamos vivendo momentos muito difíceis desde que a pandemia da covid-19 tomou conta do mundo. De uma hora para outra, perdemos certezas quanto a empregos, à renda, a respeito das relações, depois que tudo passar, se serão as mesmas, enfim, de repente, não mais que de repente, coisas que pareciam sólidas tornaram-se dúvidas das quais não sabemos ainda o desfecho.

No entanto, é possível tirar algumas lições positivas de tudo isso, acreditando que uma moeda sempre tem dois lados.

Convido você, junto comigo, a fazermos algumas reflexões sobre esse momento tão devastador quanto importante. Vamos lá?

  1. Famílias estão (re)descobrindo o lar

É muito comum, devido à correria do dia a dia, que membros de uma família não tenham tempo para perceber uns aos outros e as coisas que fazem parte do lar. Nesse momento, no entanto, pais e mães, podem ter redescoberto o ato de brincar com os filhos, ou perceber o quanto estão crescendo, ou, ainda, de como estão desenvolvendo suas personalidades. O mesmo pode ocorrer em relação aos filhos. O que antes seria só receber um beijo protocolar dos pais na porta da escola, agora voltou-se em forma de atenção e cuidado quase o tempo todo, fazendo que percebam os temperamentos positivos ou negativos dos pais. O casal também têm descoberto novas nuances da convivência. Se antes viam-se somente ao cair da tarde, depois do trabalho, jantavam e logo dormiam, para começar tudo de novo no dia seguinte, agora veem-se sujeitos a novos protocolos de convivência, possibilitando repensar o amor a partir da revisão de posicionamentos sobre a vida a dois. Além disso, há uma gama de coisas a serem feitas em casa que sempre ficavam para “quando o feriado chegar”. Um quintal para arrumar, ou consertar o vazamento do telhado ou na pia da cozinha, ajudam não só a passar o tempo dentro de casa como trazem um bem estar danado para todos.

  1. Repensar as efemeridades das coisas e da vida

Efêmero, segundo o dicionário Aurélio, quer dizer de pouca duração. Algo que tem a validade pequena, que passa logo. Muitas vezes colocamos o sentido de nossa existência em várias coisas com essa característica. A nossa felicidade dependeria de algo como a troca do carro, do quanto temos no banco, da arrumação ou não do cabelo, daquela roupa nova… A covid colocou à prova tudo isso, pois, essas e outras fugas passaram a ter pouca ou nenhuma validade. De que adianta ter carro novo se não se pode ir a todos os lugares? E a roupa nova, é para usar aonde mesmo? Repensar esses e outros valores coloca em evidência a necessidade de mudar padrões de comportamento de modo a nos colocar diretamente em contato com o que realmente importa: qual a nossa relação com o mundo, com o cosmos e, consequentemente, com Aquele que o criou: Deus. E mesmo que você não creia Nele, aproveite a oportunidade de repensar a caminhada da vida, pois o momento é ideal para todos (muito provavelmente você O encontrará após a reflexão).

  1. Fé nos homens? Que homens?

Ora, se antes colocávamos valor em coisas passageiras, por que, então, devemos acreditar piamente que indivíduos possam resolver todas as coisas por nós? De repente, nos vimos obrigados a fazer mais pela nossa família, ou pelos amigos, que qualquer político, por exemplo. A capacidade de nos movermos em direção ao outro é uma das coisas mais positivas desse momento. Artistas têm feito apresentações on-line e arrecadado toneladas de alimentos para os mais carentes, associações diversas têm se mobilizado na arrecadação de alimentos, pequenas costureiras têm feito máscaras para doações etc., enfim, uma gama de pessoas tem se mobilizado para ajudar o próximo, sem olhar a quem. Uma rede de solidariedade se formou independentemente de o governo A ou B fazer ou não alguma coisa. A fé, equivocada, antes colocada na força política, deu lugar a novas “amizades”, atravessadas por laços fraternais, mesmo sem aperto de mãos ou sem se saber quem é ou onde mora o “amigo”. É a força da comunhão de homens e mulheres que, independentemente da classe social, tem enfrentado os grandes percalços impostos pelo vírus através da ajuda mútua. Assim, esse também é um momento para examinarmos se e o que temos feito pelo próximo.

  1. Sabe aquela pessoa que você não fala faz tempo?

Numa época como a que vivemos, a solidão passa a ser uma parceira. Em questão de dias, tivemos de abandonar nossos hábitos sociais quase completamente. Deixamos de trabalhar na empresa, frequentar a escola, ir a restaurantes, visitar amigos e parentes. Encontros, somente os virtuais através de computadores ou telefones celulares. Mas, de repente nos lembramos daquele nosso amigo ou parente que não falávamos há muito tempo. Essa é uma ótima oportunidade para manter contato e perguntar como ele está, e sobre seus familiares, o que fez nesses anos todos, programar uma viagem juntos, ou mesmo um café com bolo quando toda essa loucura passar. É tempo de nos reaproximarmos daqueles que, por algum motivo, às vezes besta, deixamos passar pelas nossas vidas. Além disso, tanto para nós quanto para o outro, esse contato pode servir de estímulo para persistirmos nos planos e nos sonhos. É isso, uma chamada de WhatsApp pode mudar vidas!

  1. Depressão

Não queria entrar num assunto tão sério como a depressão, até porque não sou especialista no tema. Mas, nesse momento, não podemos deixar de perceber que aquele colega de trabalho, ou até mesmo um filho, esposo ou esposa não eram tão alegres quanto aparentavam ou pensávamos que fossem. Há muito poderíamos ter percebido que essa pessoa alternava o humor de alegre a triste em questão de minutos, ou mesmo que passava dias dentro do quarto sem qualquer contato com outros membros da família. Mas não sacamos nada. Talvez, hoje, possamos ter uma ideia mais clara de que, na verdade, são pessoas acometidas de depressão, ou de qualquer outra doença relacionada, e que precisam de ajuda profissional. Costumamos olhar para a pandemia como a causa que despertou esse tipo de doença em amigos e familiares. Acredito que sim, isso tem ocorrido muito. Mas não posso desprezar o fato de que muitas dessas pessoas já tinham o problema e que só agora familiares e amigos tomaram conhecimento. Essa é uma ótima oportunidade de encararmos a questão de frente, e sugiro da seguinte forma: aqueles que conhecem alguém assim, estendam a mão que, nesse momento, quer dizer estendam a compreensão, a compaixão, ouçam-no caso queira desabafar, mesmo que à distância, não façam julgamentos, reze, ore por ele. Ofereçam-se, com os devidos cuidados, a levá-lo ao médico. Aqueles que os têm dentro de casa, além de todos esses passos, proponham ajuda médica. Essa é uma ótima oportunidade para cuidarmos, com carinho, daqueles que foram acometidos pela doença no período da covid-19, e, também, daqueles que, só agora, conseguimos enxergar sofredores do mesmo mal.

  1. Medo da morte

Alguém já disse que muitas de nossas atividade cotidianas é para “adiar a morte”. Trabalhamos, compramos bens, nos casamos, temos e criamos filhos, viajamos de férias e, na maioria das vezes, o tema morte passa ao largo de nossas vidas. Mas, eis que surge uma pandemia, cujo inimigo microscópico, que se espalha pelo ar através do contato com pessoas, não nos permite mais adiá-la. É como se ela, a morte, estivesse à nossa espreita podendo nos abater a qualquer momento, fazendo tudo o que planejamos, tudo o que conquistamos se perder num piscar de olhos, literalmente. Além disso, a inevitável dúvida que persiste por toda a humanidade, logo se faz presente em forma da pergunta: “para onde irei após a morte?”. O resultado desse conjunto de fatores é dor e sofrimento, que se retroalimentam todos os dias do telejornal que insiste em mostrar imagens de covas abertas, e das notícias atualizadas das mortes que saem na internet. Sobre isso tenho a dizer duas coisas. A primeira, é que trata-se de um vírus do qual precisamos de vacina e de anticorpos para passarmos por ele. A segunda, é que o medo da morte é uma excelente oportunidade para repensarmos qual o nosso papel aqui na terra, como temos tratado as pessoas, refletirmos sobre a honestidade, sobre as traições que sofremos ou nos fizeram sofrer, sobre perdão, mansidão, sobre o cuidado das palavras que saem da nossa boca, sobre as relações comerciais muitas vezes desonestas e de exploração do outro, sobre Deus, sobre vida eterna etc. Mas, sinto informar que essas coisas não são resolvidas através de fórmula ou vacina. Temos, na verdade, a oportunidade para dar o “start”, dar o início a algo que propicie tornarmo-nos, e aqueles que nos rodeiam, melhores. Ademais, se a morte é algo iminente, e sempre o foi independentemente da pandemia, é preciso manter as boas atitudes criando o que se chama “círculo virtuoso”, ou seja, uma coisa boa (virtuosa) leva a outra coisa boa e assim por diante. Se morreremos amanhã ou daqui a 50 anos, semeie boa semente. Repense sua vida, (re)conheça seus defeitos, perdoe a si e ao outro. Não perca a oportunidade.

  1. O mundo pós-covid

Ainda são muitas as especulações sobre como ficará o mundo depois que tudo isso passar. Alguns dizem que a vigilância, por parte do Estado, será maior em relação aos indivíduos. Outros, mais pessimistas, dizem que o ser humano nada mudará, pois “não é um covidezinha dessas que vai nos tornar melhores”. Outros, religiosos, afirmam que estaríamos no “princípio das dores”, momento que antecederia a volta do anticristo e, em seguida, a do próprio Cristo. O mundo já teve outras pandemias em épocas de menos recursos tecnológicos e científicos que hoje, o que pode nos dar alento e esperança quanto a sairmos dessa melhores que nossos companheiros de infortúnio de séculos passados. Mas, de uma coisa eu sei: muito provavelmente as dores, as insatisfações, as dúvidas dos indivíduos que passaram por momentos semelhantes ao que passamos agora foram as mesmas. Isso quer dizer que é como nos comportamos no presente que dirá como viveremos o futuro. Se ficarmos apegados ao pânico, é certo que seremos, no amanhã, seres medrosos, e isso vai contra o nosso instinto animal. O animal homem não é medroso por covardia, o é por precaução. O homem primitivo prestava atenção ao uivo de lobos, ou de quaisquer sinais de aproximação de animais ferozes, como o leão, para se precaver, um instinto que herdamos, e que serve para não sermos pegos de surpresa, e mortos. Entretanto, em nenhum momento o homem primitivo se furtava a enfrentar os animais selvagens. O pânico nos paralisa, nos faz reféns, nos tira a força para agir, a força do pensar. Em suma, nos tira a fé. E, nesse momento, a fé é do que mais precisamos. Ela nos ajuda a enfrentar o dia a dia, a ter esperança, a, mesmo em meio ao caos do vírus, renovar a força para batalhar de forma a transformar a iminência do mal em atenção, não em pânico.

Por fim, espero que esse texto possa ajudar você, leitor, a enfrentar melhor o trágico momento pelo qual passamos. Torço, ainda, que, em breve, tenhamos nosso ir e vir restituído, bem como a possibilidade de revermos e abraçar pessoas queridas. Eu tenho fé que um dia isso irá acontecer. Você tem?

Sergio Marcone da Silva Santos é feirense, professor, com mestrado em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia – UFBA


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