Sem reformas, carro da União Européia vai atropelar o nacional, diz indústria

A indústria automotiva brasileira precisa aproveitar os anos necessários até a aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia para ganhar produtividade e reduzir custos, se não quiser ser atropelada pela concorrência externa, avalia o setor.

Essas mudanças dependem, para associações do segmento, de reformas estruturais como a da Previdência e a tributária, que atraiam investimentos para o país e aumentem o nível de competitividade das empresas nacionais.

Para Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea (associação dos fabricantes de veículos), não é uma possibilidade que o acordo entre em vigor sem as reformas terem sido aprovadas. “Não existe esse cenário. O Brasil agora tem data para estar preparado.”


Sua expectativa é que o acordo demore de dois a três anos para começar a valer. “Esse é o prazo que a gente tem para implementar as reformas nas várias dimensões. O Brasil precisa se preparar para o acordo, senão haverá mais riscos do que chances”, afirma.

José Luiz Gandini, presidente da Abeifa (associação das importadoras de veículos), disse que as reformas da Previdência e tributária são mais importantes do que o acerto entre Mercosul e UE.

“Isso sim mexe com o mercado já, muito antes do que o acordo”, afirmou. As vendas no Brasil de veículos importados caíram 9,6% no primeiro semestre do ano, ante 2018.

Para o setor automotivo, a previsão com o acordo é que a tarifa de 35% sobre a importação de carros europeus cairá a 17,5% em dez anos, com uma cota de 50 mil carros para o Mercosul nos primeiros sete anos — 32 mil para o Brasil. Em 15 anos, a taxa será zero.

“Dentro de uma linha do tempo, vemos a reforma da Previdência, a tributária e depois o acordo. No médio e longo prazo, tudo isso acontecendo, é muito positivo para o Brasil e o setor automotivo, que vem se reinventando e sofrerá transformações grandes nos próximos anos”, afirma Marcelo Frateschi, sócio de impostos e líder do setor de automotivo na EY.

Moraes diz que a reforma da Previdência “não põe dinheiro na mesa”, mas, ao endereçar uma solução para o déficit fiscal, faz com que agentes econômicos vejam o Brasil com bons olhos e atrai investimentos de fora.

A reforma tributária, por sua vez, reduziria o chamado “custo Brasil” ao simplificar o sistema de impostos.

Lia Valls, pesquisadora associada do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), diz que a indústria automotiva brasileira é protegida e que a abertura comercial é importante para quebrar monopólios. “Mas não será apenas isso que promoverá aumento da produtividade”, afirma.

A maior competitividade do setor no Brasil está ligada, segundo ela, à reforma tributária e outras mudanças microeconômicas que facilitem processos de importação/exportação e procedimentos aduaneiros e que desburocratizem o ambiente de negócios.

Tereza Fernandez, da consultoria MB Associados, relembra a abertura comercial promovida pelo governo Collor nos anos 1990. Segundo ela, o movimento foi um “choque de produtividade” para a indústria automotiva do Brasil. “Foi aí que começaram a ganhar escala. Ou as empresas se tornam competitivas, ou elas morrem.”