Rama Amaral fala do Natal comemorado no interior da Bahia

 

Foto: Pixabay

 

Então é Natal…

Na véspera do natal de 2010, numa grande cidade brasileira, alguns colegas de trabalho me convidaram para comemorarmos aquela festiva data de fim de ano. Após algum tempo com eles, resolvi da uma respirada no entorno daquele ambiente, após alguns metros dei-me com um grupo de moradores de rua, onde os cumprimentei e juntei-me a eles.

Um pouco surpresos ou assustados, logo me perguntaram “o que eu estava fazendo entre eles”? Diante da incógnita, como um bom moço ou talvez como um inocente otário, desejei-lhes, feliz natal!


Diante daquela expressão, um rapaz com características nordestina levantou-se e disse: – dotô, depende de qual natal o senhô fala, porque se for daquele natal que a Simone canta todo ano, não passa por aqui não senhô, esse natal só passa lá pelos Shoppis, lá pelas loja, coisa assim, o senhô deve saber disso, afirmou o rapaz.

–“Paraíba”, tá certo excelência! Por aqui não passa esse natal que tem Papai Noel “nem à pau”! Porque se passasse a gente não estaria vestidos nesses trapos, Completou o outro homem.

– Concordo com “Paraíba” e “Piauí”, Doutor, esse natal das praças enfeitadas, das pessoas felizes, das famílias juntas, não conhecemos há anos, só mesmo o “Sopa Nossa” que os voluntários trás pra matar nossa fome, passa por nós, expressou um jovem.

– Oxe, o amigo tá viajano, é? Ô laêle! Oxente, rapaz, tá pensano que tá em outro país, é? Sô lá de Salvador, sei da dura realidade da periferia, meu rei! Do natal sem fome, mas com fome! Do natal cheio de desigualdade e de contraste! E parece que você também é baiano, sua fala mansa e seu sotaque te denuncia, rapaz! Nenão, gaúcho? Concordou o “Gaúcho” balançando a cabeça positivamente.

Após ouvir com muita atenção seus diálogos, fiquei refletindo um pouco, com uma taça cheia de vinho na mão, quando uma moça com aspectos de adolescente e com uma giria paulistana, me pediu pra tomar um pouco, começando em seguida também seu rico diálogo:

– Pois é moço, o natal cheio de luz que acontece promovido pelo mercado e com um Papai Noel bonito vestido de vermelho, que não é o vermelho da humildade que há dentro da gente, não acontece entre nós, seja entre nós moradores de ruas ou nas casas mais humildes do mundo inteiro!

– Mas ainda assim é preciso ter esperança de dias melhores! Pois há magia em tudo, entendeu, mano? Por exemplo, acho legal as estrelas nas árvores, penso que serei eu numa posição sublime num amanhã, entendeu, mano? Quantas pessoas não olham o presépio e ficam felizes? E o Papai Noel, que além de encantar as crianças, pode lembrar a muitos um amigo velhinho, talvez um pai, quem sabe um avô! Tem gente que ver nas velas, luz para um novo amanhã! Quantas pessoas não recordam dos amigos e entes queridos que não estão mais entre elas? Quantos casais não estão juntos por causa dessa data? O bagui é louco, tio! Tá ligado, mano? Fez uma breve pausa, continuando o discurso em seguida.

Ao retomar a palavra, me pediu permissão para oferecer o vinho aos amigos, que rodaram a taça entre eles, tomando cada um, um gole da bebida, festejando com muita alegria aquele momento, onde todos cantaram uma canção natalina, que falava de renascimento, onde Cristo era mais exaltado que Papai Noel, a musica também falava de recomeço, saúde, fartura, prosperidade, luz, união, amizade, solidariedade, vida, fé, humildade, justiça, partilha, amor e paz.

Rama Amaral é um rabiscador brasileiro, natural de Dário Meira, Bahia. Autor do livro, O Rio e a Criança.