Peritos rebatem revista Veja e refutam versão de execução do miliciano

Peritos do Departamento de Polícia Técnica (DPT) convocaram a imprensa na tarde desta sexta-feira (14) para rebater a versão da revista Veja sobre a morte de Adriano da Nóbrega, no último domingo (09). Ele é acusado de ser o chefe de uma milícia do Rio de Janeiro e suspeito de envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco. O ex-policial também teria relações com o senador Flávio Bolsonaro.

Na publicação é levantada a possibilidade de Adriano ter sido executado. Peritos entrevistados analisaram fotos do corpo do ex-policial e levantaram suspeitas sobre a versão oficial dada pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA).


Segundo a SSP, o miliciano reagiu a abordagem atirando contra os policiais, que revidaram e acabaram baleando o acusado. A operação contou com um esforço conjunto das polícias do Rio de Janeiro e da Bahia.

Um dos especialistas ouvidos pela Veja, alega que haveria uma “zona de tatuagem”, que são fragmentos de pólvora presos na pele, característica encontrada em disparos a curta distância, feitos a cerca de 40 cm do alvo, o que indica uma execução. Um terceiro tiro, na região do pescoço, que não teria sido computado, também foi sugerido.

“Essa questão de 30 a 40 cm da literatura se refere a uma arma curta. Quando se trata de uma arma de alta energia, um fuzil, você não usa isso aí. Fuzis deixam residuo até mais de 1 m, 1,5 m. Você soma isso, o corpo da arma e o cano da arma, o sujeito pode estar a dois metros de distância”, contestou o diretor do Instituto Médico Legal (IML), Mário Câmar

“Não há zona de tatuagem no corpo. Nós temos fotografias para entregar às autoridades mostrando isso. As fotografias oficiais, que estão sob custódia do DPT e estão à disposição das autoridades do caso”, completou o diretor do IML.

Alexandre Silva, perito que analisou o corpo de Adriano, afirma que a análise dos especialistas ouvidos pela revista sobre um terceiro tiro foi equivocada.

“Essa suposta terceira marca está descartada. Só foram dois disparos de arma de fogo. O suposto terceiro disparo, é uma continuação do disparo que veio no tórax embaixo. Ele cruzou o pescoço, saiu perto do que a gente chama de fúrcula, passou raspando pelo pescoço e reentrou. Houve uma reentrada do mesmo disparo do tórax do lado esquerdo”, explicou Alexandre.

Ele ainda informa que o outro tiro acertou a região do lado direito, em cima da clavícula. O projétil desceu para a parte posterior do corpo e saiu.

O corpo do miliciano tinha uma lesão no peito, que o legista que serviu de fonte para a reportagem disse ter sido uma queimadura causada provavelamente por um cano de arma logo após um disparo. Os peritos baianos dizem se tratar de uma esquimose. O sangramento na pele tinha um diametro interno de 4 cm e externo e mais de 12 cm e mais um outro de 13 cm. “Não tem cano de arma com esse diametro, só se for uma bazuca”, ironizou Mário.

Já o ferimento na testa, que um especialista consultado pela revista alegou ter sido uma coronhada, foi causada após a morte de Adriano, segundo o chefe do IML. A revista também apontou que o miliciano poderia ter sido torturado, mas a perícia disse que não foram encotradas marcas que indicassem a ação

“É de se surpreender que alguém resolva analisar uma fotografia, que não se sabe nem se foi adulterada ou não, e sobre ela opinar um laudo pericial. É uma coisa, me perdoe, leviana. É um absurdo um perito oficial se prestar a um papel desse”, lamentou Mário.