José Carlos Britto de Lacerda reflete sobre ao sofrimento da população negra brasileira desde a escravidão

Por que Dia da Consciência Negra?

Anteontem, dia dedicado à “Consciência Negra” pelo Estado Brasileiro através da Lei nº 12 519, de 10 de novembro de 2011, deveria ser, não de comemoração ou de festa, mas de reflexão e, até mesmo, de luto.

Sim, luto, porque os ancestrais de cerca de tres quartos da população brasileira foram trazidos para cá “a ferros”, amontoados em porões fétidos de navios espanhóis, portugueses e, principalmente, ingleses, como se feras fossem, como se não tivessem o mínimo direito à dignidade e ao respeito humanos.

Aqui, foram usados como bestas de carga, de trabalho, sob açoites, fome, grilhões, troncos e uma infinidade de tipos de tortura e violência, física, moral e psicológica.

Uma infinidade deles pereceu de depressão (banzo), fome, infecções diversas e a grande maioria perdeu a própria identidade, a consciência de si mesmos.

Nesta nova terra, sua procriação miscigenada acabou por originar os que os portugueses chamaram de “mulatos” e “cafuzos”, mestiços sem identidade étnica, racial, normalmente desprezados pelas etnias dos ancestrais.

A consciência dos legisladores, dos governantes e dos magistrados do Brasil ao que parece “doeu”, até que enfim e, aparentemente, eles reconhecem que a manutenção do preconceito e da discriminação representa a continuidade e a permanência de um crime terrível, muito mais que hediondo, materializado na negação de oportunidades, de participação, de vida.

Enfim, ainda a “consciência negra” não se transmuda em “consciência nacional”, ou “consciência social”, ou “consciência do povo brasileiro”, havendo ainda quem escarneça de negros e de mestiços de negros (muitíssimo dos quais não possuem a cor preta na pele), quando alguém, dentre eles, se levanta para reivindicar o que é seu direito.

E o que é ainda pior, é incontável o número deles (negros e mestiços de negros), que alimenta e sustenta o preconceito e a discriminação contra seus iguais.

Creio que somente haverá razões para comemoração, quando toda a sociedade estiver conscientizada.

José Carlos Britto de Lacerda é advogado