José Carlos Britto de Lacerda reflete sobre antigas tradições e o respeito aos idosos e doentes

 

Práticas no mínimo estranhas

De um estudo de comportamentos de povos que existiram na antiguidade e, até, mesmo antes da própria história inciar a registrar fatos, vêm-nos notícias de ´costumes e de práticas rejeitadas, repudiadas nos dias atuais na maioria dos povos.

Uma delas, consistia na eliminação sumária de crianças que nascessem portadoras de efeitos, de deficiências físicas ou, até, mentais. Há notícias de que, na cidade estado de Esparta, na Grécia Antiga, este costume e esta prática justificavam-se na chamada vocação bélica daquela cidade estado, que conduzia a que todos os cidadãos deveriam estar preparados, prontos, para ataque e defesa, em relação outras cidades estados e reinos, sendo considerado que a preservação de um deficiente acabaria por enfraquecer o povo Espartano, porque teria que ser alimentado, cuidado, preservado, protegido e transportado por outros e isto retiraria soldados das fileiras.

Mas não eram apenas os Espartanos que alimentavam esta cultura nem se dedicavam a esta prática. Este era um costume generalizado entre os povos, mormente os nômades, entre eles os silvícolas e é, ainda na atualidade, praticado em muitas partes do mundo, inclusive entre tribos na América e no Brasil.

Outra, materializava-se no abandono, em locais distantes, ermos, pessoas doentes ou em idade avançada, para que morressem de sede e de fome e não viessem a pesar sobre os ombros do povo. No Japão antigo, este costume, esta prática, receia o nome de “ubasute”. Mas não era exclusiva dos japoneses, ocorrendo praticamente em todo o mundo, recebendo outros nomes, mas sempre ocorrendo sob a desculpa de preservação das comunidades. Os povos nômades consideravam ser extremamente difícil e, até, impossível, carregarem consigo, em suas migrações, pessoas deficientes, doentes ou velhas, porque isto lhes retardaria a marcha e os exporia ao risco de ataques de inimigos e de predadores.

No Oriente Médio,  o Antigo Testamento nos dá conta, os portadores da Lepra (hoje Mal de Hansen, ou Hanseníase) eram considerados impuros espiritualmente e expulsos de seus lares e das cidades, tendo que se recolherem a cavernas e furnas, longe da Civilização, primeiro para evitar o contágio (porque aquela enfermidade era considerada contagiosa) e, segundo, para impedir que as pessoas se chocassem com a deterioração física dos doentes, que simplesmente como que “apodreciam” a olhos vistos.

Em grande parte do mundo aquelas práticas foram se atenuando, principalmente a partir da instalação do cristianismo, que prega o amor ao próximo, a caridade e a ajuda recíproca, buscando tornar a Humanidade mais humana, sensível ao sofrimento alheio.

Contudo, sem comentar ou condenar alguma daquelas práticas, porque este não é o objetivo deste escrito, parece-me útil lembrar que – ainda que sem o oferecimento das justificativas dos povos antigos e dos indígenas – algumas formas de abandono de crianças com deficiência e de idosos e de doentes continuam a ser praticadas, e entre os ditos civilizados e cristãos, sendo comum e corriqueiro vermos, nos dias atuais, velhos viverem ao abandono, seja afetivo, seja material, muitos vagando pelas ruas, poucos recolhidos a instituições, mas a imensa maioria considerada como incômodo, como peso, não importando terem sido, ou não, bons ou maus pais ou parentes. É indispensável ressaltar-se o ponto positivo, encontrado na imensa maioria das mulheres, as quais cuidam, sempre com carinho e respeito, mães e pais idosos.

O que parece engraçado é que quase ninguém se lembra de que poderá adoecer e que, sem possibilidade de evitar, envelhecerá e poderá sorver o mesmo cálice que, agora, põem nos lábios dos seus velhos e dos seus doentes.

 

José Carlos Britto de Lacerda é advogado