Ipiaú: Relembre a grande enchente de 1964 e outras histórias da época na crônicas de Albione Souza

 

Antiga área de prostituição dos “Dez Quartos” em Ipiaú durante a enchente de 1964 /Acervo digital pessoal

Ipiaú: A Enchente de 1964, O Município Modelo e outras histórias…

Era uma vez… com término do período de seca que assolava Ipiaú e região, outro fenômeno de ordem climática trouxe novos problemas para cidade: as cheias do Rio das Contas e Água Branca. Ao iniciar o ano de 1964, fortes chuvas levam vários rios da região a transbordar, deixando moradores desabrigados.

Nosso município foi um dos que mais sentiram as consequências dessa famigerada enchente, devido ao aumento do volume das águas do rio que cerca Ipiaú, deixando a cidade literalmente ilhada pelas águas. Grande parte da população ficou “sem eira nem beira”, isto porque as ruas com maior densidade demográfica eram ribeirinhas.

Nessa época, ocorre um fato que causa grande repercussão: a Igreja Católica (matriz de São Roque) desabou com as fortes chuvas. Sobre as consequências da cheia em Ipiaú, o jornal A Tarde publica matéria tratando da situação:

De todas as cidades atingidas pelo rio de Contas, a que se encontra em pior situação é Ipiaú, onde, ontem à tarde, já havia se registrado mais de 200 desabamentos, inclusive da igreja local. As estradas que ligam este município com Itabuna, Ibirataia e Tesouras, estão obstruídas em vista das chuvas que continuam caindo fortemente em toda região. Nas ruas do Cacau, do Abacateiro e Praça Rui Barbosa registram-se vários desabamentos, estando a população completamente ao desabrigo. A Avenida São Salvador, situada no caminho do campo de aviação, está interditada, visto que nada menos de 100 casas desabaram, tendo as autoridades, por medida de segurança, decidido evacuar as demais famílias que ali ainda se encontravam. O prefeito de Ipiaú se dirigiu às autoridades sanitárias do Estado pedindo providências, uma vez que teme epidemia de moléstia infectocontagiosa.

A situação piorava devido a existência de propriedades rurais em torno da cidade, “espremendo” a população entre os rios transbordando e as cercas de arames farpados preservando a sacralidade das roças de cacau. Diante dessa calamidade, o prefeito Euclides Neto busca meios para conter o flagelo da população. Recorreu ao governador do Estado, Lomanto Júnior, recebendo doações e medicamentos a fim de combater o surto das enfermidades; entretanto, a falta de moradias demandava maiores recursos.
Assim, movido pela necessidade em abrigar os flagelados, o prefeito utiliza outra propriedade rural para fins de desapropriação, priorizando mitigar os problemas de ordem social, em detrimento da manutenção de propriedades rurais limítrofes ao perímetro urbano. A área escolhida era parte da Fazenda Conquista, espólio da família do Sr. Alberto Pinto.
A desapropriação da área com 16 hectares, feita através do decreto 1.009 de 20 de janeiro de 1964, gerou litígio entre seus proprietários e o poder público municipal, pois no local existia uma frondosa roça de cacau, sendo inconcebível sua derrubada dando lugar aos casebres para os desalojados da cheia de 1964.
Para a construção das residências, foram utilizados alguns materiais recuperados na enchente, além de recursos emergenciais do município e do Estado. Cada casa possuía terreno medindo oito metros de frente por vinte metros de fundos, a área construída era dividida em dois cômodos quarto e sala, possibilitando, posteriormente, a ampliação da área inicialmente construída.

Casas construídas para os desabrigados da enchente de 1964. Área desapropriada do espólio do Sr. Alberto Pinto, iniciando-se o loteamento do “Bairro da Democracia”.

 

Vemos na foto acima a área desapropriada, que além de servir para a construção de moradias, também foi utilizada para a construção do Centro Agrícola de Educação, formado pelo Ginásio Agrícola Municipal de Ipiaú-GAMI, Escola de Menores, Escola Centro de Educação e o Horto Florestal Municipal, área com 1 hectare, com árvores e plantio de cacau, utilizada para a realização das aulas práticas com os estudantes.

Antes da criação do Ginásio Agrícola Municipal de Ipiaú – GAMI, atual (CEI) a educação ginasial era limitada aos que podiam pagar as mensalidades do Colégio de Rio Novo, ou mesmo os ingressos por meio de bolsas. Tais condições cerceavam a oportunidade da maior parte da população em ingressar no ensino ginasial, sobretudo os filhos dos trabalhadores das roças de cacau, impossibilitados de pagar as mensalidades.

Alguns fazendeiros abastados chegavam até mesmo a sentenciar que “Caneta de Trabalhador Rural é o Cabo da Enxada”. Na ânsia de adquirirem bolsas de estudos, doadas por padrinhos políticos em busca do voto, alguns estudantes eram humilhados por prefeitos e por influentes grupos políticos. Sobre as razões da construção do primeiro ginásio público em Ipiaú, Euclides Neto comenta:

Certa manhã, uma lavadeira entrou pelo gabinete, ajoelhou-se aos meus pés e rogou: – Pelo amor de Deus, pelo leite que o senhor mamou em dona Edite, me arranje uma bolsa de estudos para minha filha. Não aguentei mais. Fiquei envergonhado de ver tanta humilhação naquela mulher. Por outro lado, cassei várias bolsas de estudos que a política eleitoreira distribuiu com pessoas não necessitadas, o que provocou rusgas políticas.

Euclides Neto com os alunos da primeira turma do GAMI (1966)/ Acervo digital pessoal

As desapropriações, buscando atender as classes sociais menos favorecidas, em detrimento da propriedade privada, conotam o caráter socializante presente na gestão do prefeito Euclides Neto. Tais atitudes, realizadas na primeira metade da década de 1960, auge da polarização ideológica movida pela guerra fria, gerou desconfiança entre os cacauiculltores abastados e grupos políticos conservadores que se sentiam “ameaçados” pelas ações do prefeito, considerado esquerdista e, por extensão, subversivo. São estes grupos conservadores locais que, após a implantação do governo militar, denunciam Euclides Neto de atos comunistas e tentar cassar o seu mandato.

Em julho de 1963, por iniciativa da prefeitura municipal, com participação de 184 colaboradores diretos, adquiriu-se a Casa de Saúde Antônio Coelho Lima, passando-se a se chamar Fundação Hospitalar Ipiaú. O Jornal de Ipiaú, em matéria publicada na ocasião, registrou:

Agora partiu um fato mais importante na vida hospitalar de Ipiaú. Por iniciativa de homens abnegados (sem distinção de classe ou cor política), atentos aos sofrimentos dos humildes, tendo à frente o Prefeito Euclides Neto, que além de sua contribuição pessoal de duzentos mil cruzeiros, também a prefeitura Municipal de Ipiaú contribuiu com um milhão de cruzeiros, vem de ser adquirida a CASA DE SAÚDE E MATERNIDADE “ANTÔNIO COELHO DE LIMA”, onde o pobre terá assistência gratuita, devendo ser entregue ao povo dentro de poucos dias.

A aquisição da referida “Casa de Saúde” marca o funcionamento do primeiro hospital público com atendimento gratuito no município. Além de servir ao município de Ipiaú, seu atendimento médico atraía a população das cercanias, a exemplo de Ubatã, Aiquara, Dário Meira, Itagibá, Ibitupã, Ibirataia e Barra do Rocha.

No segundo semestre de 1965, o Instituto Nacional do Desenvolvimento Agrário (INDA) realizou uma pesquisa com o intuito de eleger, em cada estado do país, uma localidade que receberia o título de “Município Modelo do Brasil”. Os principais critérios exigidos eram o desenvolvimento nas áreas sociais e econômicas, além, também, da harmonia entre os três poderes.

Fotografia tirada na época do recebimento do título de Ipiaú Município Modelo /Acervo pessoal digital

No Estado da Bahia, o município de Ipiaú foi contemplado com esse título. Foram eleitos 20 municípios modelos, cada estado da federação teve o seu representante. O marco do recebimento do título de Ipiaú Município Modelo está localizado numa pedra erguida em frente à Câmara Municipal de Vereadores. Na ocasião, o prédio do atual legislativo municipal funcionava como sede da Prefeitura de Ipiaú.

Albione Souza Silva – Professor efetivo da Rede Estadual da Bahia e da Rede Municipal de Ipiaú. Graduado em História pela UESC – Itabuna/Ilhéus, Especialista em Educação Cultura e Memória – UESB, Especialista em História do Brasil – FACSA, Especialista em Docência do Ensino Superior – Faculdade do Piemonte da Chapada e Mestre em História pela UNEB – Alagoinhas. Autor do livro “Os Despossuídos da Terra” publicado pela Via Litterarum Editora, em 2021. Brevemente laçará a obra de literatura infantojuvenil denominada “Cido, O Pequeno Cidadão”, pela Via Litterarum Editora.

Na área audiovisual, em 2002 produziu o documentário “Euclides Neto: O homem e seu tempo”, disponível no Youtube.

Me encontre no Instagram https://www.instagram.com/albioneeducador/


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