Foram 98 anos de amor ao Samba e à cultura da Bahia: Obrigado, Riachão

“Se Deus quiser eu vou chegar ao 100”. Era este o título do álbum que o sambista Riachão, que morreu, na madrugada desta segunda-feira (30), aos 98 anos, preparava para lançar em 2020. Ele tinha fome e sede de vida. Cantor desde os 9 anos, com as serenatas da época, ele não escondia nas letras de samba o amor pela Bahia.

Nascido como Clementino Rodrigues, em Salvador, mais especificamente no bairro do Garcia, Riachão foi um apelido que veio logo na infância e durou toda uma vida, sendo, segundo ele, “um nome de malandro”.

Já aos quinze anos, trabalhando como alfaiate em Salvador, Riachão viveu um episódio que determinou o futuro dele como letrista. Ao passar pela Rua da Misericórdia, avistou um pedaço de revista caído ao chão e leu: ‘Se o Rio não escrever, a Bahia não canta’. E, a partir daí, nasceu “Deixa o Dia Raiar” (ou Eu sei que sou malandro).

Com jeito irreverente e sempre com um abridor de garrafa pendurado no passante do cinto e uma toalhinha envolta no pescoço, para não fugir da boêmia, Riachão assinou composições que ganharam destaque em vozes como as de Cássia Eller, Caetano Veloso e Gilberto Gil, como “Cada Macaco no Seu Galho”, “Vá Morar Com o Diabo” e “Retrato da Bahia”.

Mas, independente das regravações, o artista sempre chamou as próprias obras de “canções sobre o cotidiano da humanidade”. Sem formação escolar, Riachão cantava sobre o que via e vivia pelas ruas, a exemplo de “Chô Chuá”, que foi um marco para o período da ditadura brasileira, com o retorno de Caetano e Gil do exílio.

“Ouvi uma conversa de antigos, o pessoal do tempo de meu pai, e aí houve uma confusão, eles discutiram e alguém disse: ‘Ah! Cada macaco no seu galho!’. Deus me mandou essa música a partir disso”, contava.

Apesar de ter cerca de 500 composições, muitas se perderam no tempo ou na memória do poeta baiano. Gravadas mesmo, só as que fizeram parte dos três álbuns da carreira de Riachão. O último deles, lançado em 2013, “Mundão de Ouro”, que leva o nome de uma canção dedicada a Dalva Paim Rodrigues, ou “Dalvinha”, segunda mulher do sambista, resgatou muito dessa memória perdida.

E, apesar da idade e da fragilidade nos movimentos, no Carnaval deste ano, em Salvador, Riachão, que deu nome a um dos circuitos da festa, no Garcia, apareceu sorridente e mostrando que ainda tinha samba no pé. Ao BNews ele disse, na última entrevista, que o Carnaval era festa de Deus e da alegria, assim como ele definia o samba. “O samba, para mim, é Deus. Deus é a música. Então o samba é um tudo de bom para mim”.

Não deu para lançar mais um disco, não deu para comemorar o centenário com samba, mas, com certeza, deu para levar a música, a Bahia e a felicidade a milhões de brasileiros que, por gerações, reverenciavam as composições dele, que pode ser definido com um mestre da música.

E, como ele mesmo dizia em uma de suas canções: “Minha vida é alegria. Para a tristeza não dou bola. Se surgir algum problema, com o samba eu resolvo na hora”. Que fique a lição!