Economia Política: De onde vem o Crédito?

Imagine que os formandos do 3º ano colegial, vão organizar no final do ano, uma festa num clube social da cidade… E que a grande questão entre os organizadores é: Dado que queremos vender 3.000 cervejas, quantas fichas (voucher de troca, ficha x bebida) precisaríamos emitir e disponibilizar no Caixa Interno da festa?

Muitos vão dizer de pronto: – 3.000 fichas para vender 3.000 cervejas, ora bolas! Dado que a maioria das pessoas acreditam que para cada bem material disponível, exista a mesma quantidade correspondente de dinheiro em espécie em circulação. Não é bem assim, entenda!

Suponha, que se o Caixa for disposto ao lado do Balcão de Entrega das bebidas, a quantidade de fichas será brutalmente reduzida. Dado que ao entregar uma bebida e receber de volta a ficha, basta rapidamente devolvê-la ao Caixa ao lado, e pô-la a venda novamente. Tal qual a parábola da multiplicação dos 5 pães e 2 peixes, anunciada por Jesus, que ao final, depois de ter alimentado 5.000 homens, ainda reataram 12 cestos (Mateus 14:13-21, Marcos 6:31-44, Lucas 9:10-17 e João 6:5-15).

Em verdade, a quantidade de ficha demandada, será mínima e exatamente igual ao tamanho da fila preestabelecida pela organização da festa. Com sobressalto excepcional, quando a banda começar a tocar e a sanha popular excitada aumentar o consumo momentaneamente. Senão, só precisaríamos de quantas fichas, quão fichas fossem necessárias para suprir o tamanho da fila “tradicional”? Suponhamos, umas 40 fichas (menos de 1,2% do valor venal contábil-total das cervejas produzidas e colocadas a venda).

Agora imagine qual seria o processo contábil para se fechar e prestar contas desta festa e apurar o lucro auferido.

Para a maioria das pessoas, a partir daqui, surge uma pulga atrás da orelha, coçando a cabeça ardentemente: – Será que contando as fichas encontradas no caixa, no final da festa, na alta madrugada, será possível apurar o lucro? Claro que não! Diria um esperto leitor avexado, mesmo sem pensar. Pois, as fichas não passam de um meio de liquidação “monetária” momentânea na relação de troca de valores entre a mercadoria (cerveja) e o papel-moeda (ficha-voucher).

Hum… Agora a porca torceu o rabo e o boi levantou a fuça, sentindo cheiro de tesão intelectual-econômica no ar. Ali atrás, um leitor mais inteligente já percebeu, e rapidamente fez a correlação macroeconômica municipalista. Vide abaixo, com a devida e merecida pachorra um caso real.

Fonte: BCB. Estas informações são privilegiadas e de extrema importância para a compreensão do Sistema Financeiro Operante em Ipiaú-BA (2019).

Mesmo sem ter bebido nenhuma cerveja… peguei. Eureka!!! (Heureka, ou Heureca é uma famosa exclamação atribuída ao matemático grego Arquimedes de Siracusa. Eureka é uma interjeição que significa “encontrei” ou “descobri”, exclamação que ficou famosa mundialmente por Arquimedes de Siracusa).

Quer dizer que o próprio Banco Central do Brasil, publicou em 2019 que para movimentar a Economia de Ipiaú-BA (pequena cidade monocultora de cacau de 50 mil habitantes no sul da Bahia – Ou melhor definição:  Mais uma das mais de 5 mil cidades brasileiras exploradas pelo sistema financeiro bancário brasileiro, que goza da benção do BCB), demostra que com apenas R$ 5,8  milhões em caixa, é o bastante para tocar uma economia, onde o somatório dos Ativos Financeiros das 4 agências bancárias, somam R$ 822 milhões (só as 4 agencias deste minúsculo município) onde a cidade produz anualmente um PIB de cerca de R$ 460 milhões/ano? Rapaz… e qual é a mágica e/ou truque por traz?

A mágica é a seguinte: – Você já ouviu contarem a história duma moça-caixa que estava juntando (central autônoma pouco transparente) o dinheiro da turma do colégio, para bancar a festa da formatura? Pois bem, imagine que essa danada usou o dinheiro ao longo do ano (repetidos ciclos de negócios, todo o tempo, antes do dia da festa) e montou uma loja que deu muito lucro, inclusive, vendendo roupa fiado, cobrando juros alto, na praça, sobre as prestações vincendas… (tudo financiado com o uso do dinheiro alheio).

É isso que o sistema bancário faz todo dia numa Economia Capitalista: Aplicar o dinheiro dos depositantes poupadores cobrando juros dos desesperados pelo consumo imediato e a qualquer custo. Tudo “vai muito bem”, até o dia em que a turma quiser, de forma unanime, adiantar a data da festa. Ai ferrou! Isso seria a temida Corrida Bancária. Temidíssima sim, pois, não há dinheiro existente, suficiente, para todos. Lembra das 40 fichas da festa, 1,2% do valor total das 3.000 cervejas? O banco, no fundo é uma instituição malabarista inveterada, que engabela a todos, através duma velha fórmula (que só ele pode usar sem ser preso) via procedimentos contábeis ilusórios correntes e aceitos, ou pelo menos, desconhecidos da maioria…

Em resumo, o papel moeda impresso pela casa da moeda (nossas hipotéticas fichas), não se confunde com dinheiro. Em especial, aquele contabilizado digitalmente na contabilidade dos Bancos e do Banco Central.

Por um outro lado, há que reconhecermos, que os bancos exercem um papel fundamental na Economia na prestação de serviços financeiros na liquidação de pagamentos, carreando as sobras de caixa dos superavitários, para viabilizar o giro dos deficitário-momentâneos. Aqui está o segredo do crédito numa Economia de Sistema Capitalista! Quem entendeu, entendeu. Quem não entendeu, volte ao ventre de origem e ao nascer novamente… Como diria Dona Florinda: Vê se da próxima vez…

Tudo aparentemente nobre e salutar ao conjunto da sociedade, se não fosse o papel segregacionista discriminatório praticado veladamente pelos bancos, na escolha dos beneficiários deste crédito, as custas dos explorados economicamente. A este ponto do texto, minha vó perguntaria: “os bebedores de cerveja é quem serão os heróis desta estória, como prega o midiático comercial de cerveja patrocinado pelo Jorge Paulo Lemam, meu filho?” Não vó. Espero que sejam os leitores mais sagazes! Embora em Ipiaú, se se publicar algum texto com mais de 140 caracteres, é muito pouco provável a leitura completa e atenta dos afetados. Olhe lá o editor e os “donos” da cidade.

Entenda os meios reais da exploração Econômica: Ao cobrar do consumidor 432% ao ano, de juros na fatura parcelada do cartão de crédito e cheque especial, e, 8% a.a. para um fazendeiro, por exemplo, isto implica comparativamente, amarrar uma bola de ferro no pé do consumidor e uma pena no pé do produtor. Quem você acha que vai ganhar esta corrida? Haja Bolsonaro para falar bobagem diuturnamente de forma programática pré-agendada, para desviar a atenção sistêmica, em desfaçatez corrente-secular, contratada politicamente.

Por outro lado, no submundo econômico-financeiro, os bancos estão montando para si, negócios muuuito lucrativos, com o dinheiro (suor) alheio. O que você acha disto? Dá para competir com eles? Que moleza não? E saber que em 10 anos comprando bens e serviços financiados, o seu balanço patrimonial será o abaixo esquematizado.

E o balanço dos bancos, o inverso disto. (vide mais uma vez o triste quadro acima).

Você já tinha imaginado que há séculos esta é uma prática recorrente diuturnamente praticada pelo Sistema Financeiro e monetário, em todo o mundo, com a benção dos governos via Bancos Centrais? Por que alguém se sujeitaria a assumir a presidência da república para ganhar R$ 39 mil por mês, enquanto tem juízes na nossa microrregião tendo R$ 109 mil de vencimentos mensais totais? (para os descrentes, vide relatório público postado no site do CNJ). Beeeem acima do teto. O apelidado: Judicial Cloud Salary. Lembrança tempestiva: Tá na lei.

O Caso do Crédito Agrícola em Ipiaú-BA.

Se não bastasse o tradicional e uso indevido do crédito rural para outros fins particulares e/ou para saciedade dos desejos familiares, desviados portanto, ao consumo e/ou acumulo do patrimônio pessoal, ao invés de serem aplicados na produção agrícola de fato. Prática insustentável que desviou milhões em recursos (só na esfera ipiauense) provenientes de financiamentos rurais governamentais, não aplicados no desenvolvimento, conservação e aumento da produtividade das fazendas de cacau… Agora ainda temos que enfrentar, neste fim de feira, mais uma ladeira íngreme, do Spread Bancário (é a diferença entre a taxa que as instituições financeiras captam dinheiro dos agentes econômicos superavitários, menos a taxa a maior, que elas cobram ao emprestar este mesmo dinheiro aos agentes deficitários). Spread este, que não perdoa o passado e cobra caro pela inadimplência costumeira, forçadamente, intencionalmente planejada; estatisticamente registrada, percebida e reprecificada futuramente, no lombo de todos.

Num cenário e enredo fantástico decadente de: Comer borra de café com mel à noite, e arrotar caviar de dia; largamente praticado na nossa região cacaueira. A notória profecia parece estar a caminho: O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão já diziam em prenuncio os pretos-velhos, sábios senhorzinhos, mateiros de outrora, característicos macaqueiros das antigas e primeiras fazendas de cacau.

Analisando os dados financeiros de Ipiaú, o que salta aos olhos é sem dúvidas, o nível de endividamento alcançado por nossos produtores rurais. Mais de R$ 25 milhões em setembro de 2019, quando muitos ainda carregam antigas dívidas, não renegociadas, a taxa anual de 8 a 12% a.a. Ou cerca de R$ 2 milhões por ano, só em serviço da dívida, se considerado apenas 8% a.a.

Oximoro gritante, comparativamente, quando em 2020 a Caderneta de Poupança e os CDBs, estão nos pagando líquido 2,95%a.a. Jesus!

Com uma produção municipal anual, de cerca de 70 mil arrobas de cacau e uma margem bruta (da porteira para fora) de R$ 32,00/arroba, podemos concluir que cerca de 75% desta (renda total) estaria comprometida, apenas para estabilização da dívida (sem o pagamento do montante principal). A pergunta é: Se agora, os bancos resolverem tomar pé da situação e marcharem à pagar a dívida, as fazendas, vão viver do que?

Destacar, que todos nós torcemos juntos, sem rancor, pela retomada do sucesso da cacauicultura! Até mesmo por que está pesado carregar este corpo em estado iminente de putrefação: A cacauicultura… Para quem já foi a rainha do salão? A Bela entre as belas, luxuosa, atrevida, culta e ao mesmo tempo estúpida, extravagante exógena, insensível com os miúdos sustentadores; agora vê-la neste estado fúnebre consequente?

Situação em caso de intransigência com os credores

Abaixo o cálculo estimado, em caso extremo de intransigências com os bancos credores, para liquidação da dívida em 12 anos. Este valor equivaleria a comprometer 33% da Receita Bruta Total, das fazendas, para liquidação da dívida, sendo 2 anos destes, usados para carência e restruturação técnica, administrativa e o indispensável aumento da produtividade.

Esta proposta extremada, somente se sustentaria, se houvesse um aumento da produtividade e/ou do preço do cacau, em pelo menos 40%. Caso contrário, os produtores não teriam condições sustentáveis e seria mais negócio (em muitos casos) fingir-se de fazendeiro, servindo em verdade de flanelinha, tomando conta da propriedade “alheia” (ativo bancário não contabilizado ainda como prejuízo pelo banco) em especial, ao Banco do Brasil, que detém 84% da carteira. Lembrar, que somente em Ipiaú, são centenas de fazendeiros em situação similar, e ainda, que as contas foram realizadas como sendo um todo (média geral).

Simulação 1:

Situação em caso de mais um perdão de 95% do principal e redução dos juros a 3% a.a.

A proposta que vem tramitando nos bastidores do governo, em Salvador-Brasília, pede-se o perdão da dívida em 95% e redução dos juros a 3% ao ano. Este valor equivaleria a comprometer 1,3% da receita bruta total, das fazendas, para liquidação da dívida em 12 anos, sendo 2 destes, usados para carência e restruturação técnica e administrativa.

Simulação 2:

Se bem tivéssemos capricho, honradez, bons procedimentos, zelo e inteligência coletiva financeira, não teríamos o prédio da Santa Paula parado a mais de 3 décadas, fábricas de chocolate por construir e exportar, Polo Fruticultor Processador para consolidar, fazendas de cacau para recuperar; enquanto todos dormem sonhando, na esperança do poder público “maior”, vir nos carregar no colo, sem sequer termos ciência da expropriação passada, presente e futura.

Apenas usando de forma responsável e racional, as COOPERATIVAS DE CRÉDITO LOCAL, não precisaríamos nos expor a tamanha exploração e estagnação programática.

Para os mais astutos, sugiro assistirem aos vídeos abaixo, como reflexão complementar a leitura.

Signatário Elson Andrade – arquiteto, urbanista, empresário e pós graduando do Instituto de Economia da Unicamp.