Economia Comportamental: Individualismo x Egoísmo e o papel do Estado no jogo socioeconômico

Em primeiríssimo lugar, deixar claro que aqui, não se trata de eleger o que é certo ou errado, a priori. Mas sim, discutir as consequência dos Valores aos quais sustentamos (voluntária ou involuntariamente), praticamos no plano individual, que por fim, afetam o conjunto imediato da sociedade econômica!

Ao tratar da distinção entre Individualismo versus Egoísmo, alguns vão de pronto indagar: – Mas não é a mesma coisa?

Individualismo é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade ou ao Estado. É pois, a preservação objetiva da sua individualidade e preferencias, até o limite, e, em respeito à materialidade e liberdade de outrem.

Egoísmo é o hábito ou a atitude de uma pessoa ou grupo, apropriar-se de algo, colocar seus interesses pessoais, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, inconsequentemente; em detrimento de outrem, do ambiente e de questões coletivas, frente as demandas das demais pessoas, direta ou indiretamente. Neste sentido, é o antônimo de altruísmo.

Embora pareça a mesma coisa, mas, não é! No fundo isto chega a ser a base da distinção e sustento, do conteúdo e forma do pensamento, valores e cultura de povos, embora próximos, mas na verdade, se bem apurado… são muuuuito diferentes. Exemplo, das culturas Anglo-saxã versus a Latina.

Enquanto o cerne e distinção da postura individualista dum anglo-saxão seja aparentemente, a do isolamento; a dum latino, é muito mais perniciosa e invasiva. Em seus estudos sobre ergonomia espacial interpessoal, batizada de Proxêmica, o professor inglês, Edward Twitchell Hall Jr., deixa claro o incômodo dum inglês clássico, quando algum estranho se aproxima demais, e por fim, invada a bolha espacial psicossocial deste inglês, americano ou norte europeu. Em contraparte, para um espanhol, italiano ou brasileiro, (a “invasão”) pareça ser uma atitude normal de contato interpessoal que manifesta, a priori, uma postura de preferência ao “compartilhamento”.

Como exemplo cotidiano deste contraste, seria como o estranhamento dum nordestino, à primeira vista, pré-classificar os sulistas como: povo fechado!

O nordestino em geral, tem muita dificuldade em respeitar a privacidade alheia, considerando tal postura, como vantagem e aconchego. O que muitas vezes não é.

Seria a grosso modo o equivalente a dizer que, o individualista, só quer o seu… já o egoísta, quer o seu e o do outro, sem sequer perceber ou admitir que praticou isto. Age de forma “natural”.

Pode até parecer algo sutil, sem importância com consequências socioeconômicas concretas. SQN, como dariam as crianças!

O nosso povo infelizmente, espera muito do Estado. Do outro. Ou do que velha dos outros – do Estado – ou melhor: do alheio! Quando cada um deveria de forma inteligente, complementar, autoconsciente… mais salutar, estar cada qual lutando pelo seu, de forma honesta, harmoniosa, cooperativa sem desconstruir a parte alheia.

Esperar que tudo lhe venha do governo, é sim, um sinal de cultura baseada no egoísmo. Com sérias consequências a coletividade, no produto final. Senão vejamos:

1)    Os cacauicultores que passaram décadas vivendo às custas dos cínicos financiamentos governamentais (predominantemente destinado ao consumo patrimonial e familiar em detrimento do investimento real na fazenda e/ou cidade) vivendo de “fraude financeira” praticada via jogo político-creditício com o Banco do Brasil, (por exemplo) que resultou num hiper endividamento da região – R$ 2 bilhões (que nos custará os próximos 80 anos, sacrifício e estagnação econômica) quando tudo resultou em uma das formas que vem travando a nossa economia agrícola local (incapacidade de reinvestimento contínuo). O pior, é que tem ainda muita gente esperando a saída do imbróglio, financista-consumista, vindo através de mais endividamento na forma da velha política;

2)      O fato de muitos preferirem comprar um lote mais barato num loteamento clandestino, e consumir a vida da família reclamando, a espera que o poder público venha realizar a infraestrutura, a qual nem ele, nem o loteador tenham pago por ela… é uma forma burra e muito cara de viabilizar a moradia, pois, a falta de saneamento gera muito mais gastos público e particular com o tratamento de doenças, faltas ao trabalho e a escola, desvalorização e iliquidez do patrimônio acumulado…

3)    Hoje a Câmara Municipal de Ipiaú, já nos custa R$ 3,44 milhões por ano, se fizermos as contas do valor líquido da margem de contribuição das receitas advindas do Cacau, sozinha, ela (Câmara) consome teoricamente, o equivalente a cerca de 115 mil arrobas de cacau por ano. Enquanto que a produção anual de cacau de toda a cidade, malmente tem chegado a 70 mil arrobas/ano;

4)    Manter em custo permanente 320 professores para apenas cerca de 6.900 alunos na rede municipal, em dois turnos, o que dá apenas 10 alunos por cada professor-turno, sem a devida demonstração que estes alunos estejam de fato aprendendo algo substancial ou mesmo legal… Ou ainda, transformar o debate da adequada alocação de recursos públicos frente a uma boa gestão, em uma mera disputa eleitoreira e/ou ideológica, numa falsa questão de – Se você é contra ou a favor da Educação, ou, se Direitista ou Esquerdista… enfim, isto não é sustentável e terá consequências graves, num futuro próximo. Daí, a  “obrigação” do gestor gastar fábulas com entretenimento (São Padro e outros eventos amaciantes de ego), R$ 3,44 milhões com a Câmara em detrimento de R$ 1,1 milhões com o “carro chefe da economia” local: a Agricultura. Para não ser trucidado eleitoralmente? É um escárnio, fruto da estupidez egoísta dos eleitores e principalmente, daqueles grupos políticos e gestores que coalimentam isso. Nestas condições circunstanciais, um enriquecido vereador deveria andar cabisbaixo, envergonhado por receber estes recursos de pessoas e cidades, tão empobrecidas, carente, vítima desta forma institucional tão truculenta, se levado em conta que são 13 vereadores ao todo (se ao menos fossem 4 ou 5 e 3 ou 4 servidores auxiliares). Repare que o artigo 29, item IV da Constituição Federal não diz a quantidade mínima de vereadores. Mas sim, a máxima! Cabendo a Lei Orgânica Municipal estabelecer a QUANTIDADE JUSTA e SUSTENTÁVEL de vereadores, por legislatura. E de nada adianta o vereador andar com carro velho surrado e manter momentaneamente o dinheiro em aplicações financeiras no banco, fora da cidade!

5)    Vejamos o caso em que uma pessoa montou uma farmácia e teve aparente sucesso… daí, por pura inveja, falta de métrica e criatividade, inovação ou egoísmo mesmo, houve uma explosão de farmácias, mercadinhos, postos de gasolina, escolas particulares… de forma desmedida, repetida, desproporcional, a demanda real, a qual tem exigido prática de preços unitários muito altos, para compensar a baixa quantidade vendida e garantir uma margem de lucro fixa insuportável, natural a nossa economia, para por fim, satisfazer seus padrão de consumo. Onde tal erro, já acumula transferência indevida (do coletivo para o privado) de mais de R$ 4,35 milhões por ano, (somente dos consumidores ipiauenses de combustíveis, aos donos de postos de combustível e GLP)  que precificam superlativamente seus produtos, por terem apenas 1.100 veículos por posto, quando a média no sudeste é de 9.300. Não bastasse a cidade já vir definhando devido as consequências do Oligopsônio, agora ainda sofrer com mais essa: a prática de Monopólios insano, desnecessário?

6)    Quem tem um seguro de automóvel, estando o carro com problema no motor, não coberto pela apólice, e facilita que o veículo seja roubado, para com aquela indenização possa vir a completar a compra dum outro melhor, se esquecendo que o preço do seguro se dá sobre uma estatística passada. Ou ainda, quando a lei define, que nenhum aluno será reprovado, ou salário de professor descontado, tendo estes faltado até 75% das aulas. Fato este, que passa a ser considerado lei: – Só preciso ir em 75% das aulas;

7)    Votar em um candidato flagrantemente errado, despreparado para uma boa gestão pública, apenas para seu time-torcida “vencer”… ou mesmo para zombar dos “perdedores”, como fizeram os eleitores paulista-nordestinos que votaram no Tirrica e acabaram elegendo Valdemar da Costa Neto (DNIT) e mais outros tantos facínoras do (PR). No nosso pobre nordeste, principalmente, votar por troca de pequenos brindes ou por esperar favores do seu vereador, deputado, no uso da máquina pública em preferência do compadrio, sem o devido respeito a Ordem Cronológica e a Impessoalidade Constitucional. Infelizmente, tem muito pobre cavando a própria cova, só para ganhar flores de “graça” no enterro.

Em outras palavras, a cultura egoísta do: pirão pouco, o meu primeiro, do uso via intermediação do vereador ao interferir cinicamente numa fila… a fim de ganho no particular e perdas ao coletivo, apropriando-se do coletivo e transferindo sorrateiramente, favores, riquezas e benesses aos eleitos e apadrinhados… é sim, uma forma de egoísmo e péssimo negócio no agregado final. Se cada um fizesse o seu, de forma complementar e harmoniosa, seria, por fim, muito mais viável e sustentável a comunidade e a individualidade sadia (que é a unidade última de medida objetiva da satisfação e saciedade:- o indivíduo).

Parece que a ameaça real para o Brasil, não se tratar de Comunismo, mas sim, de Consumismo a qualquer custo. É irmão contra irmão, onde por fim, só quem ganha é o manipulador exógeno.

Dentre outros, há 3 vilões do patrimônio alheio, que são: o Estado, os oligopólios e o Mercado Financeiro. Veja no esquema abaixo, as consequências do uso desenfreado de crédito caro alimentado a juros altos, pode causar em estrago, ao longo dos anos, na formação do patrimônio dos consumistas inconsequentes, engabelados, ávidos pela manutenção do consumismo a qualquer custo:

Ai você pergunta, mas não era o Poder Público e o Consumo que prometiam satisfação plena aos egoístas?

Uma outra questão, é quando grupos políticos associados, patrocinados por grupos empresariais, usam o Estado para obter incentivos fiscais a setores específicos, prometendo satisfação geral. Vejamos acima as consequências devido as perdas fiscais causadas aos Estados e municípios, que já somam mais de R$ 800 bilhões desde 1996, com a aprovação da lei Kandir, ação do governo FHC que prometeu aos Estados e municípios, a devida reparação do desfalque na arrecadação, com compensações vindas de transferências do orçamento da União. O que não houve! Muitos consideram uma traição do FHC, que causou grandes consequências ao equilíbrio orçamentário dos Estados e municípios, desde então. O fato é que hoje, o setor exportador não paga impostos, não gera empregos em proporção sustentável, leva nossos minérios, safra, ocupa nossos créditos agrícolas… e ainda exigem que o Estado custei toda uma nova malha logística, dedicada, para por fim eles ainda posarem de heróis da pátria as custas de comerciais institucionais pagos veiculados bombasticamente nas mídia nacionais pagas.

Veja abaixo, Luiz Eduardo Magalhães é uma cidade rica (um dos maiores PIBs do país) com uma prefeitura pobre proporcionalmente. Ruas sem pavimentação e Saneamento Básico… sendo que os exportadores de soja, tiveram seus preços corrigidos 140% acima da inflação do período.

Gráfico da variação preço soja e as consequências no financiamento da infraestrutura urbanas na cidade de Luiz Eduardo-BA

No caso concreto de Ipiaú e demais cidadezinhas da microrregião, a situação é inversa, por incrível que pareça: – Tem muita gente obtendo renda a partir do poder público enquanto assistem a economia local definhar, a beira dum precipício chamado reformas: Previdenciária e a vindoura Tributária.

Repara quem tem trazido dinheiro novo para a cidade e quem tem consumido, atoa os recursos públicos, que deveriam estar sendo aplicados diretamente no desenvolvimento.

Para aqueles que ainda enchem o peito e dizem que o Cacau é quem tem nos sustentado economicamente… Reparem bem os dados nos gráficos abaixo; e respondam com honestidade, o quanto o Cacau ainda responde com as 70 mil arrobas/ano? Infelizmente, a anestesia tem sido geral.

A questão que fica é: Até quando a falta de entendimento e trato na devida distinção entre: Individualismo versus Egoísmo, frente ao agregado coletivo resultante? E fundamentalmente, que a Economia é essencialmente circular e coletivista. Se só um ganha… trava o jogo.

Esse nosso jeitinho latino de levar vantagem pessoal em tudo, precisa passar em revista urgentemente, antes que a vaca morra no brejo. Pois lá, já está!

Para os mais astutos, sugiro assistirem aos vídeos abaixo, como reflexão complementar a leitura.

Signatário Elson Andrade – arquiteto, urbanista, empresário e pós graduando do Instituto de Economia da Unicamp.