Economia: A cacauicultura à espera de mais um milagre caia do céu

Infelizmente, mas esta é a mais pura e predominante verdade! Em pleno 2019, no fundo do poço, com o dólar chegando a R$ 4,12/US$, muitos ainda continuam inertes a espera de um milagre salvador, governamental ou chinês, venha nos salvar.

A região cacaueira depois de mais de um século “vivendo na dependência da economia monocultora do cacau” ainda não compreende bem, qual é o desenho (origem x destino) da geração e apropriação do valor do cacau na cadeia de abastecimento global.

Abaixo, artigo publicado pelo Mercado do Cacau, e, vídeo complementar com o presidente da Cacau Show, que nos chama a atenção sobre as recentes oportunidades de multiplicar as receitas das fazendas da cacau da nossa região… rezando para que não seja, apenas mais uma oportunidade soprada aos ventos, dado a nossa passividade, inércia e forma de agir e pensar, na contramão dos nossos tempos e dinâmica.

A tradicional visão que os empreendedores do cacau e o povo nordestino em geral, têm do governo, infelizmente, ainda é de paternidade! Como filhote indefesos e dependentes. E quando estes governantes nos fazem de embeiceis, ainda nos surpreendemos como se fosse surpresa.

Cultuamos a livre iniciativa, só na ideia, enquanto agimos como carneirinho reclamão. Cada povo tem o governo que merece, diriam os mais radicais. Ou ainda, o todo é feito de partes, e, se a parte estiver contaminada…

A verdade é que durante muitas décadas, só nos preocupamos com a entrega do cacau no armazém, com o saldo na conta, com o perdão da dívida da lavoura, junto ao Banco do Brasil; para já poder contrair espertamente a próxima. Como até a década de 80, o Banco do Brasil “emprestodava” recursos gerados a partir do nada (emissão descontrolada e abusiva de títulos públicos)… era um tal de – ladrão que rouba ladrão, tem 100 anos de perdão.

Nunca foi nossa obstinação real, o estudo de como e quanto, estávamos produzindo, a que preço, a aquém servia nosso produto e a qual a taxa de lucro estava sendo gerado na cadeia de valor: do cacau na roça, ao chocolate nas prateleiras nos shoppings do Brasil e no mundo.

Faça o teste, pergunte aos 5 últimos presidentes de associações de produtores, a Ceplac, etc. quanto o cacau responde pelo PIB de Ipiaú e comparativamente quanto é a nossa atual dependência do FPM, INSS e Bolsa Família?

O espirito de porco, a naturalidade e desfaçatez em praticar a godela, a torcida política pelo quanto pior melhor, a falta deassociativismos programático e objetivo, a falta de investimento na infraestrutura e P&D, o desleixos com o conjunto da sociedade, sobretudo Educação… nos trouxeram aqui. Podem acreditar. Não foi Deus que quis. Não se trata de justiça social divina. Fomos nós mesmos que plantamos e agora colhemos este estado de coisas.

Para quem pensa e age de forma objetiva, entre em contato com a APEX BRASIL (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos do governo federal) acesse-a através do link:  https://portal.apexbrasil.com.br/nossos-servicos/quero-exportar/ e conheça os reais caminhos das pedras para a exportação e/ou importação.

Mais uma vez, são anunciadas oportunidades reais, as quais os lesos vão perguntar: – onde que entrega, por quanto, quando recebo? Como se fosse fácil e cômodo assim. Senão vejamos:

A cadeia produtiva do chocolate é repleta de desequilíbrios. Enquanto de um lado há um pequeno grupo de multinacionais produtoras de chocolate que dominam o mercado, na outra ponta existem milhões de pequenos agricultores que não conseguem viver da produção do cacau. Na tentativa de equacionar tal desproporção alguns pequenos e médios produtores artesanais suíços têm investido no comércio direto com agricultores no Brasil, Peru, Colômbia, entre outros. O volume de negócio é baixo, mas tais iniciativas podem ser uma inspiração para o resto da indústria.

Pequenos e médios fabricantes de chocolate suíços estão apostando num relacionamento mais estreito e participativo com os agricultores do cacau, em países como Brasil, Peru, Colômbia e Gana. Essas iniciativas do chamado comércio direto não são totalmente novas, mas vêm crescendo nos últimos anos e surgem como uma tentativa de buscar novos modelos de negócio para uma cadeia produtiva repleta de desequilíbrios, e insustentável.

Essas iniciativas fazem parte do chamado movimento “bean to bar”, ou seja, um sistema de produção do chocolate em que a matéria-prima é de melhor qualidade; assim, a origem do cacau se torna relevante, e a produção é artesanal, de menor escala. Em muitos casos, a sustentabilidade de toda a cadeia produtiva é fundamental e levada a sério.

chocolatier La Flor, com sede em Zurique, é um exemplo. O projeto nasceu em 2018 da necessidade de quatro empreendedores suíços de buscar uma forma mais sustentável de produção do chocolate, que respeitasse o ambiente e oferecesse condições dignas às pessoas envolvidas em todas as etapas da produção. Para isso, o modelo do La Flor tem como base o relacionamento estreito com produtores do cacau. Um desses parceiros é a fazenda bio certificada Vera Cruz, no sul da Bahia, Brasil, que fornece as variedades de cacau Forastero e Trinitário.

Ali, o cacau é produzido pelo método cabruca em que as árvores do cacau crescem sob a sombra da floresta nativa, da Mata Atlântica no caso, havendo uma integração maior com flora e fauna local e, portanto, não havendo necessidade de desmatamento. O desflorestamento é um desafio para muitos países produtores de cacau, como Gana e Costa do Marfim, na África, onde a mata local tem sido destruída para se plantar o cacau. Na Costa do Marfim, por exemplo, estima-se que 80% da floresta nativa tenha desaparecido desde 1960 – e uma das causas é a plantação de cacau.

A fazenda Vera Cruz, que é de propriedade de um suíço, trabalha com o sistema de agrofloresta, combinando o cacau com as plantações de açaí e pupunha. Como safra secundária ali se cultiva baunilha, pimenta, cravo e guaraná. “Em nosso caso, não existe intermediário. Uma vez por ano, vamos ao Brasil e visitamos as plantações”, explica Ivo Müller, um dos fundadores da La Flor Chocolate, e filho de Roland Müller, que é proprietário da Fazenda Vera Cruz no Brasil juntamente com Jennifer Tibbaut.

Garantir uma vida decente aos produtores e suas comunidades e preservar o meio ambiente, valorizando a biodiversidade local, faz parte do DNA da La Flor, e de algumas outras pequenas e médias empresas suíças, que se propõem a fazer diferente. Tanto que o time da La Flor paga pelo cacau brasileiro mais do que dobro daquele que é cobrado em bolsa. O cacau, em geral, é comercializado na Bolsa Mercantil de Nova York e na Intercontinental Exchange em Londres.

O preço pago aos agricultores pelo cacau é um dos pontos nevrálgicos da sustentabilidade da cadeia produtiva do chocolate, principalmente no caso dos grandes compradores de cacau e produtores de chocolate, que dominam a indústria.

Pelo fato da maioria do mercado estar nas mãos de cerca de meia dúzia de multinacionais, criou-se uma assimetria abissal entre essas gigantes e milhões de pequenos agricultores, que, em sua maioria, não têm acesso à informação de mercado, novidades de produção e tecnologia. Eles têm, portanto, pouquíssima capacidade de negociar preços com essas grandes organizações. Resultado: muitos agricultores não conseguem viver dignamente do cacau que plantam – vivem abaixo da linha da pobreza, em contextos sociais críticos. Em alguns países da África ainda se registra casos de trabalho infantil e tráfico humano.

No Brasil

No Brasil, que já foi um importante fornecedor para o mundo, o cacau começou oficialmente a ser plantado em 1679, inicialmente no Pará, e em 1746 o francês Luiz Frederico Warneau deu a Antonio Dias Ribeiro, fazendeiro do sul da Bahia, algumas sementes do cacau, introduzindo o cultivo na região. Foi no Sul da Bahia que o cacau viveu seu apogeu.

No período de 1986 até 1990, o Brasil ocupou o lugar de segundo maior produtor mundial do cacau. Com a expansão da doença vassoura-de-bruxa no final da década de 80, as plantações foram dizimadas. Hoje, o Brasil ocupa o sétimo lugar Link externono mundo, atrás da Costa do Marfim, Gana, Indonésia, Equador, Camarões e Nigéria, de acordo com a Organização Internacional do Cacau (ICCO) e Euromonitor International.

A produção de cacau na região do Pará vem crescendo significativamente nos últimos anos e já superou à do Sul da Bahia. A estimativa da Organização Internacional do Cacau é de que a produção brasileira aumentará a uma taxa de 2,6% ao ano entre a safra de outubro de 2018/19 e a safra 2022/23. Aos poucos, novas iniciativas têm buscado o desenvolvimento de novas tecnologias e o apoio ao produtor.

No entanto, os desafios dos agricultores do Sul da Bahia não são poucos. Segundo o professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) José Olimpio de Souza Júnior, não se trata apenas da vassoura-de-bruxa, mas de questões como as mudanças climáticas (com longo períodos de seca seguidos de excesso de chuva), o endividamento agrícola, a baixa produtividade e o baixo uso de tecnologia, que afetam diretamente a capacidade de desenvolvimento das fazendas. Em alguns casos, o nível de endividamento é tão alto que o proprietário acaba sendo obrigado a se desfazer do negócio.

Chocolate de origem

Entre aqueles que estão conseguindo sobreviver há um grupo de fazendeiros que tem focado sua produção num sistema menos extrativista e alinhado à valorização da biodiversidade local. Alguns desses agricultores também têm optado por produzir o próprio chocolate, apostando na demanda do chocolate de origem.

Ainda que esse último grupo seja pequeno, e opere com volumes menores, essa estratégia tem sido adotada e parece ganhar novos adeptos no Brasil também. Na região do Sul da Bahia, novas marcas têm surgido nos últimos anos. Mais de 40 marcas da região foram apresentadas e comercializadas no Chocolat Festival, realizado em abril deste ano em São Paulo.

Há ainda quem combine o cacau com o turismo. A fazenda Yrerê, em Ilhéus, é um exemplo: ali, o turista visita uma pequena plantação, ganha noções básicas sobre a plantação e sobre o processo de preparo do grão. Depois pode degustar um suco de cacau, os nibs (sementes fermentadas, secas, torradas e trituradas) de cacau e, se quiser, comprar o chocolate da fazenda.

Os consumidores:

Independente da qualidade, o chocolate é um produto cada vez mais apreciado pelos consumidores mundo afora. Na Suíça, é líder. O país é o maior consumidor per capita do mundo, com 8,8 quilos por pessoa, em 2017, e para atender tamanho apetite importou cerca de 43 mil toneladas de cacau no mesmo ano. O brasileiro consume 2,5 quilos (per capita) de chocolate ao ano, segundo Ubiracy Fonseca, presidente da Abicab, Associação Brasileira de Chocolates, Amendoim e Balas.

Uma parte desses consumidores quer saber o que está por trás – e por dentro – das deliciosas barrinhas, bombons e trufas que degustam com frequência. Esse tem sido o público alvo da La Flor e de outros pequenos produtores de chocolate na Suíça, como Choba Choba, que produz chocolate com o cacau da Amazônia peruana, e Garçoa, que produz chocolate com cacau do Peru, Gana e India.

Trata-se também de um nicho de mercado, composto por consumidores que têm uma certa consciência do fato de que o preço real do chocolate – ou seja, aquele que é capaz de dar uma vida digna aos agricultores do cacau – tende a ser maior do que o cobrado por muitas marcas. É um público que tem condições de pagar mais pelo produto final.

No entanto, fica difícil prever qual o impacto do “bean to bar” na grande massa de consumidores. O que já está acontecendo é que, em geral, onde quer que seja, a demanda por maior transparência de informação cresce, seja em relação aos ingredientes presentes nas barras e bombons de chocolate, assim como em relação aos impactos ambientais e sociais desta cadeia produtiva.

As grandes empresas produtoras de chocolate têm desenvolvido várias parcerias e iniciativas nos últimos anos para melhorar seus processos, eliminar a pobreza e o trabalho infantil de sua cadeia produtiva, atender as necessidades dos agricultores. Mas os desafios não são poucos.

O “bean to bar”, com sua diversidade de modo de produção, parcerias inovadoras, respeito ao agricultor e à terra, pode servir de inspiração para a grande indústria fazer melhor.

Fonte: mercado do cacau/swissinfo.ch

Para os mais astutos, sugiro assistirem ao vídeo abaixo, como reflexão complementar a leitura.

Signatário Elson Andrade – arquiteto, urbanista, empresário e pós graduando do Instituto de Economia da Unicamp.