Chegou a hora do Brasil investir na 3ª dose? Entenda o que se sabe sobre o reforço das vacinas

 

Foto: Shutterstock

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À medida que a Bahia e o Brasil avançam na vacinação contra a covid-19, uma nova questão tem sido cada vez mais difícil de ignorar: a iminência da necessidade de uma terceira dose para quem já foi imunizado. As notícias que vêm do exterior parecem estar todas na mesma direção, países como França, Alemanha, Estados Unidos e Israel já planejam doses de reforço, ignorando os apelos da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Nem é preciso ir muito longe: na última semana, o estado do Rio de Janeiro anunciou a intenção de vacinar idosos com uma terceira dose, a partir de outubro. No final do mês passado, o Ministério da Saúde (MS) lançou um estudo que deve avaliar o reforço para as pessoas que tomaram as duas doses da Coronavac.

Mas será que é hora de dar início a uma nova leva de imunização em quem já recebeu alguma vacina? Cientistas em todo o mundo têm se debruçado sobre o tema para tentar responder a essa pergunta, que não é tão simples quanto parece. De um lado, há uma vasta literatura científica sobre doses de reforço que funcionam bem com imunizantes contra outras doenças. De outro, críticos apontam desde as consequências para a vacinação em um nível global até a possibilidade de a resposta imune não ser bem o que se espera.

No meio disso, há ainda algumas incógnitas, como quem deveria tomar esse reforço – ou ‘booster’, no inglês – e de quanto em quanto tempo ele deveria acontecer. A OMS tem sido cautelosa. Para a entidade, não é hora de se falar em uma terceira dose quando boa parte dos países pobres não consegue nem mesmo sair dos primeiros dígitos de percentual de vacinação de suas populações.

E é aí que também está o principal problema do Brasil para a maioria dos especialistas: o país ainda está longe de completar a imunização da maioria das pessoas. Para a imunologista Viviane Boaventura, pesquisadora da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) e da Rede Covida, é “óbvio” que a terceira dose, enquanto reforço, é bem-vinda.

“Mas é preciso entender que tem uma prioridade de vacinar quem não recebeu nenhuma dose. A gente vive numa escassez de vacina”, diz ela, que é professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Adolescentes
Com apenas 22% da população do Brasil totalmente imunizada – ou seja, tendo recebido duas doses ou a vacina de dose única da Janssen -, a situação do país é o principal ponto de questionamento. Na Bahia não é muito diferente: a cobertura vacinal completa só atinge 21% da população até o momento.

O grupo dos adolescentes com idades entre 12 e 17 anos, cuja vacinação também tem sido discutida, deveria vir antes dessa terceira dose, na avaliação da epidemiologista Glória Teixeira, professora do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Ufba.

“Essas crianças e adolescentes não só precisam ser protegidas como também vão contribuir para reduzir a forma de transmissão, quando forem vacinadas”, explica.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse em julho que esse público deve ser incluído depois que toda a população adulta tomar a primeira dose. Na Bahia, Salvador tem feito o cadastro desse público, especificamente adolescentes com comorbidades ou deficiências.

Para quem
Após um tempo, qualquer vacina apresenta uma queda em sua capacidade protetora; algumas mais do que outras, algumas em menor tempo do que outras. Além disso, a experiência de imunizantes tradicionais, como o da gripe, mostra que idosos costumam ter uma resposta mais baixa às vacinas, em comparação ao restante da população.

Na última quinta-feira (12), o ator Tarcísio Meira morreu aos 85 anos, vítima da covid-19. Ele já tinha sido vacinado com duas doses. Sua companheira, a atriz Glória Menezes, 86, também testou positivo, se recupera, mas seguia hospitalizada até a sexta (13).

Diante de situações assim, em uma eventual necessidade de terceira dose, os idosos seriam grupo prioritário a recebê-la. Vacinas que usam o vírus inativado, como é o caso da Coronavac, têm percentual de eficácia menor, então, uma possibilidade é que pessoas que a receberam sejam destacadas primeiro para um booster, diz a imunologista Viviane Boaventura.

“Mas estamos especulando. Ainda precisamos de dados e eles devem sair em breve”, pondera. Esse tem sido o raciocínio adotado no Chile, que já tem quase 70% de sua população vacinada com duas doses. Na última quarta (11), o país deu início à campanha de reforço para idosos com mais de 86 anos. A meta é aplicá-la em todas as pessoas com mais de 55 que receberam a Coronavac até março. Elas devem tomar uma dose da AstraZeneca ou da Pfizer.

Os seis meses de intervalo têm sido considerados pela maioria. “Em geral, se espera um ano, mas estamos em emergência sanitária e estamos aprendendo ainda. A doença covid é toda nova”, reforça a epidemiologista Glória Teixeira, do ISC/Ufba.

Doses diferentes
Tanto o exemplo do Chile quanto o estudo do Ministério da Saúde preveem a mesma possibilidade: o uso de vacinas diferentes. Na linguagem científica, isso é chamado de intercambialidade de vacinas.

A experiência científica sugere que essa intercambialidade não apenas seja possível, como poderia aumentar a eficácia em alguns casos. No entanto, como pondera o biomédico Herbert Pina, doutor em Biologia e Biotecnologia de Micro-organismos e professor da UniFTC, ainda faltam pesquisas para concluir que pode ser feito com toda a população.

“Quando a gente está num espaço controlado, é uma coisa, mas quando passa para uma população com uma diversidade de repertórios imunológicos, tudo passa a ser mais complexo”, diz.

As vacinas de vetor viral, como AstraZeneca e Janssen, contudo, têm uma indagação específica caso o booster seja uma realidade. Como usam outro vírus inativado para carregar um pedaço do coronavírus, não é impossível que uma terceira dose igual acabe não tendo o efeito desejado.

“Quando você tem uma vacina de vetor viral, nosso sistema de defesa monta uma resposta não só contra o vírus, mas também contra o vetor. Se você dá doses repetidas da mesma vacina, o vetor pode ser destruído antes mesmo de chegar à célula humana e acaba perdendo o efeito protetor desejado”, explica a imunologista Viviane Boaventura.

Isso não necessariamente seria um problema para imunizantes que usam outras plataformas, pelo menos até então. Essa semana, a Sinovac, fabricante da Coronavac, divulgou resultados preliminares que indicam que a terceira dose da vacina pode aumentar a taxa de anticorpos neutralizantes em até sete vezes, em pessoas com 60 anos.

A Pfizer, por sua vez, já havia divulgado em julho que identificou que um reforço feito seis meses após a segunda dose pode aumentar os níveis de anticorpos de cinco a dez vezes.

Mais complexo
Uma eventual queda nos anticorpos neutralizantes é a principal razão que tem sido apontada por alguns cientistas e pelas farmacêuticas para o reforço. No entanto, existem algumas ponderações. A primeira delas é que essa queda na taxa de anticorpos é esperada em qualquer processo infeccioso.

Além disso, essa redução não significaria necessariamente uma queda na proteção. “A imunidade é super complexa”, diz o biomédico Herbert Pina, professor da UniFTC.

Ele explica que há também o sistema imune inato – aquele que nasce com cada um – e a imunidade celular, que, a partir do contato prévio com um micro-organismo, desenvolve uma memória imunológica. “A vacina vai estimular essas três imunidades paralelamente”.

A imunidade celular é liderada pelos chamados linfócitos T, que não são medidos por esses exames que calculam anticorpos neutralizantes. Segundo a imunologista Viviane Boaventura, é possível ter uma resposta considerada muito boa já com essas células de defesa.

“Por que se usa o anticorpo neutralizante para isso? Porque é mais fácil, já fazemos isso há muito tempo. Mas ainda que tivesse esse teste de resposta da célula T, será que seria um parâmetro adequado para saber se tem proteção? A gente não tem a resposta ainda”, completa a imunologista.

Desabastecimento
Apesar dos possíveis benefícios de uma terceira dose, uma política como essa agora por parte de nações poderosas não viria sem consequências para o resto do mundo. Pelo menos, é o que diz a OMS, que reforça que ainda não há evidências científicas que provem que esse reforço é mesmo necessário agora. Para a entidade, é preciso esperar até que pelo menos todos os países tenham imunizado ao menos 10% de suas populações.

Hoje, pouco mais de 30% da população mundial recebeu ao menos uma dose de vacina, enquanto 16% das pessoas ao redor do mundo estão totalmente imunizadas. No entanto, segundo a plataforma Our World in Data, apenas 1,2% da população dos países mais pobres recebeu, no mínimo, uma dose.

No Brasil, para a imunologista Viviane Boaventura, é preciso haver uma ação coordenada e baseada em evidências. “Não adianta um estado fazer uma coisa e outro fazer outra. Se tem terceira dose no Rio, mas não tem primeira ou segunda em outros locais, não vai funcionar”, completa.

‘O fato de ter piorado tanto mudou a regra do que é aceitável’, diz pesquisador
Depois de atingir médias de mais de quatro mil mortes por covid-19 por dia, o Brasil tem visto os números caírem, tanto de óbitos quanto de internações. Mas, o índice ainda é alto, com mais de mil mortes diárias e praticamente não tem mais medidas de restrição social.

Na Bahia, a tendência também é de queda, depois de seguidos recordes com mais de 100 óbitos por dia ao longo do ano. O estado chegou a ter um dia com apenas um registro, no último domingo (08). Por aqui, ainda não há transmissão confirmada da variante delta. Nos demais dias da semana, oscilou entre 20 e 40 óbitos por dia.

Mas seria isso aceitável? Para o cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede Análise Covid-19, não se deve naturalizar essas quantidades. “O fato de ter piorado tanto acaba fazendo a gente, sem querer, mudar nossa régua do que é ruim ou aceitável”, diz ele, citando os números da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Brasil.

Em todo o ano de 2019, todas as mortes por SRAG, provocadas por diferentes causas, somaram seis mil. Já atualmente, são seis mil mortes por SRAG por semana no país, apenas em decorrência da covid-19.

“Ninguém deveria morrer por uma doença que a gente sabe como evitar a transmissão e tem vacina. Nenhuma morte deveria ser aceitável”, reforça o pesquisador.

As quedas no número de óbitos têm sido associadas ao avanço da vacinação no Brasil. No entanto, é possível que o próprio impacto da vacina chegue a um limite, em um determinado estágio ainda desconhecido.

“A gente não consegue ainda ter um número exato, mas vamos supor que tivéssemos 100 mil óbitos sem vacina e reduzíssemos 90%. Ainda assim, teriam 10 mil mortes. E, para evitar isso, a gente teria que reduzir a transmissão”, reforça.

Para reduzir a transmissão, é preciso interromper pelo menos um ciclo inteiro de contágio. “Quanto mais vacinamos e quanto mais rápido vacinamos, mais prevenimos agravamentos e óbitos. Ao mesmo tempo, reduzindo a transmissão, a gente protege todo mundo. É como se você estivesse distribuindo coletes à prova de balas e, ao mesmo tempo, tomando medidas para diminuir a quantidade de tiroteios”, exemplifica.

 Hilza Cordeiro / Correio