Bolsonaro acusa Rui Costa, do PT, de ‘queima de arquivo’

O presidente Jair Bolsonaro atacou o governador da Bahia, Rui Costa (PT), e culpou a Polícia Militar do Estado pela morte do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega. “Quem é o responsável pela morte do capitão Adriano? PM da Bahia, do PT”, afirmou o presidente em evento realizado no Rio de Janeiro neste sábado (15.fev.2020).

Bolsonaro foi ao Rio para participar da inauguração da alça que ligará a ponte Rio-Niterói à Linha Vermelha. Também esteve num megaevento da Igreja Internacional da Graça de Deus, em Botafogo, na zona sul da cidade. Estiveram com o presidente o juiz Marcelo Bretas, o senador Flavio Bolsonaro (sem partido-RJ), e os ministros Augusto Heleno (Segurança Institucional) e Tarcisio Freitas (Infraestrutura), além do prefeito carioca, Marcelo Crivella (Republicanos).

Adriano da Nóbrega morreu no último domingo (9.fev) durante operação policial que o encontrou em 1 sítio no município de Esplanada (BA). A Secretaria da Segurança Pública baiana alega que ele foi morto por 2 disparos efetuados pelos policiais porque Adriano reagiu ao ser enquadrado. Ele era apontado como chefe da milícia “Escritório do Crime”, investigado no inquérito que apura o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

O governador da Bahia reagiu às declarações de Bolsonaro. Nas redes sociais, Rui Costa afirmou que o governo de seu Estado “não mantém laços de amizade nem presta homenagens a bandidos nem procurados pela Justiça“. Leia a íntegra do posicionamento de Rui Costa (16 KB).

A declaração faz referência à condecoração oferecida em 2005 a Adriano da Nóbrega pelo filho mais velho do presidente, o senador Flavio Bolsonaro (sem partido-RJ), na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). No mesmo evento em que o presidente fez acusação contra a PM da Bahia, neste sábado, Flavio Bolsonaro explicou que não havia como “adivinhar“ o que Adriano viria a fazer 15 anos depois.

“A Bahia luta contra e não vai tolerar nunca milícias nem bandidagem“, escreveu o petista.

Rui Costa disse que a polícia baiana tem como determinação cumprir ordem judicial e prender criminosos com vida. Fez uma ressalva em defesa de valores familiares, e acusou o presidente e sua família de manterem laços com o que chamou de “marginais“.

“Se estes atiram contra pais e mães de família que representam a sociedade, os mesmos têm o direito de salvar suas próprias vidas, mesmo que os marginais mantenham laços de amizade com a Presidência“, escreveu.

Em nota enviada pelo Planalto após a resposta de Rui Costa, o presidente Jair Bolsonaro endureceu o tom e mencionou o ex-presidente Lula.

“É irônico o governador petista falar de más companhias quando, nos últimos anos, os principais dirigentes nacionais do PT foram condenados e presos na operação Lava Jato“, diz o texto. Eis a íntegra (19 KB).

Para Bolsonaro, o governador da Bahia “não só mantém fortíssimos laços de amizade com bandidos condenados em 2ª Instância, como também lhes presta homenagens“. “Fato constatado pela sua visita ao presidiário Luís Inácio Lula da Silva, em Curitiba“, continua.

Na mensagem, o presidente reclamou da ausência da Polícia Militar da Bahia durante a inauguração do aeroporto de Vitória da Conquista, há 7 meses.

Bolsonaro voltou também a bater na tecla de que a polícia baiana é culpada pela morte de Adriano da Nóbrega.

“A atuação da PMBA, sob tutela do governador do Estado, não procurou preservar a vida de um foragido, e sim sua provável execução sumária, como apontam peritos consultados pela revista Veja. É 1 caso semelhante à queima de arquivo do ex-prefeito Celso Daniel, onde seu partido, o PT, nunca se preocupou em elucidá-lo, muito pelo contrário.”

O presidente reforçou novamente que Adriano da Nóbrega foi condecorado por Flavio Bolsonaro em 2005, destacando que, “até a data da sua morte, nenhuma sentença condenatória transitou em julgado em desfavor do mesmo“.

Bolsonaro finaliza o texto cobrando os nomes dos “mandantes” da morte do ex-policial, lembrando também outros crimes ainda não elucidados –bem como o atentado sofrido por ele próprio em 2018, em Juiz de Fora (MG).

“Os brasileiros honestos querem os nomes dos mandantes das mortes do prefeito Celso Daniel, da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, do ex-capitão Adriano da Nóbrega, bem como os nomes dos mandantes da tentativa de homicídio a Jair Bolsonaro.”

HOMENAGEM HÁ 15 ANOS
Jair Bolsonaro fez 1 discurso há 15 anos, quando era deputado federal, o policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega.

Em 27 de outubro de 2005, o presidente afirmou que Adriano era 1 “brilhante oficial”. À época, o então PM do Rio era acusado de participar do homicídio de 1 guardador de carros e havia sido condenado em 1ª Instância. Depois, recorreu em 2006, foi solto e absolvido em 2017.

Investigações em curso indicam que Adriano teria atuação em diferentes atividades ilegais. Ele agia mantendo relações com a milícia do Rio, com o jogo do bicho, máquinas caça-níqueis e até contratação profissional de homicídios. Nenhuma dessas acusações havia ainda sido comprovada.

Para Bolsonaro, em seu discurso de 2005, havia interesses por trás da condenação de Adriano. Eis o que o então deputado falou: “Interessa ao casal Garotinho [à época, Rosinha, mulher de Anthony, era governadora], porque a Anistia Internacional cobra a punição de policiais em nosso País, insistentemente. É preciso ter um número “X” ou certo percentual de policiais presos”.

A transcrição do discurso pode ser lida nas notas taquigráficas da sessão.

Em 2003, o filho mais velho do presidente, Flávio, propôs uma moção de louvor ao então policial, que foi aceita. A proposta foi feita na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), onde Flávio era deputado estadual.

A Assembleia também concedeu a Nóbregasua mais alta honraria, a Medalha Tiradentes. Na justificativa, Flávio Bolsonaro afirma que em junho de 2001 o ex-policial “logrou êxito em prender 12 marginais no Morro da Coroa”.Também cita uma lista de armas que teriam sido apreendidas na operação. Adriano não foi receber a medalha, porque estava preso por causa da condenação em 1ª Instância no caso do guardador de carros (que para parte dos PMs envolvidos no episódio seria traficante).

Neste sábado, tanto Jair Bolsonaro como Flávio falaram sobre as homenagens a Adriano em 2005.

Eis o que disse o presidente: “Não tem nenhuma sentença que tenha trânsito em julgado condenando o capitão Adriano por nada. Sem querer defendê-lo. Desconheço a vida pregressa dele. Naquele ano [2005], ele era 1 herói da Polícia Militar. Como é muito comum qualquer policial militar, em operação, matar o vagabundo, mata o traficante, e a imprensa, em grande parte, vai em defesa do marginal e condenam o policial […] Não existe nenhuma ligação minha com a milícia do Rio de Janeiro. Zero. O Adriano eu vi, conheci pessoalmente, em 2005, e nunca mais tive contato com ele”.

Bolsonaro também declarou que orientou Flávio a dar a condecoração a Adriano em 2005: “Eu é quem pedi para meu filho condecorar. Para que não haja dúvida. Ele era 1 herói. Eu determinei. Pode trazer para cima de mim essa aí! O meu filho condecorou centenas de policiais. Meu filho, não. Se você tiver 1 mínimo de zelo, e consultar na Alerj moções, medalhas, raros são os deputados que não deram centenas de medalhas de condecorações. Vocês querem me associar a alguém por uma fotografia? Por uma moção? Isso aconteceu 15 anos atrás. Pessoas mudam. Para o bem ou para o mal, mudam”.

Eis o que disse o senador Flávio Bolsonaro: “Não adianta querer me vincular à milícia, porque eu não tenho absolutamente nada com milícia. Condecorei o Adriano há mais de 15 anos. Há mais de 15 anos! Como é que eu posso adivinhar o que ele faz de certo ou errado hoje, depois de 15 anos? Vão insistir com isso?”

O senador prosseguiu, ao lado do pai, neste sábado (15.fev.2020) no Rio: “Eu tive a informação de que iriam cremar o corpo dele. Fiz questão de ir para as redes sociais e pedir que não o fizessem. Porque, pelo que eu soube, é aquilo que está na revista [“Veja”, que trouxe fotos mostrando que Adriano foi morto com tiros à queima roupa] ele foi torturado. Para falar o quê? Com certeza nada contra nós. Porque não tem o que falar contra nós. Não temos envolvimento nenhum com milícia”.

A TV Câmara tem nos seus arquivos o vídeo do pronunciamento de Bolsonaro falando sobre Adriano Nóbrega em 27 de outubro de 2005. Assista (6min17s):

CASO DA RACHADINHA

Adriano Nóbrega foi mencionado na investigação conduzida pelo do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre a possível prática de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro quando o atual senador era deputado estadual fluminense.

“Rachadinha” é 1 esquema ilegal praticado em vários Poderes Legislativos: o deputado estadual ou federal contrata funcionários (em geral os salário são altos) e pede que devolvam por fora parte ou todo o dinheiro.

De acordo com o Ministério Público fluminense, Adriano teve contas bancárias usadas para que dinheiro chegasse a Fabrício Queiroz –que foi assessor de Flávio Bolsonaro e é 1 dos suspeitos de comandar o esquema de “rachadinhas”.

Tanto Queiroz como Adriano foram ao mesmo tempo do 18º Batalhão da Polícia Militar do Rio. Queiroz ajudou na contratação de parentes de Adriano no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.

Foram contratados na assessoria do então deputado estadual Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega (mulher de Adriano), de 2007 até novembro de 2018, Raimunda Veras Magalhães (mãe de Adriano), de abril de 2016 a novembro de 2018.

Neste sábado (15.fev.2020) no Rio, o presidente Jair Bolsonaro foi questionado se havia pedido a Flavio empregasse em seu gabinete na Alerj a mãe e a mulher de Adriano. Nesse momento, Bolsonaro respondeu que acabaria com a entrevista. Disse: “Vocês estão passando para o absurdo”.

A partir desse trecho da entrevista, o filho Flávio passou a falar com a imprensa. Uma repórter então perguntou novamente a respeito de familiares de Adriano no gabinete de Flávio na Alerj. O presidente interrompeu: “Fica quieta, vai, deixa ele falar. Educação”.

Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega (mãe e mulher de Adriano) foram demitidas da Alerj em 13 de novembro de 2018. Cada uma recebia, à época, salários de R$ 6.490,35 mensais.