Opinião Sérgio Marcone: Não existe amor no Detran

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O título deste pequeno texto foi inspirado na música do artista paulistano Criolo. Em “Não existe amor em SP” (ouça aqui ), o rapper, depois de caracterizar uma São Paulo caótica, conclui: “aqui ninguém vai pro céu”.

Fica fácil, então, de entender que não se chega ao céu sem se ter amor. Não ir para o céu, aqui, corresponde ao resultado obtido pela falta de generosidade, pela crueldade, pela dureza com que se trata o próximo e, por que não?, aqueles que estão distantes também.

E não só em São Paulo, como diz a música. Ninguém que está por trás dos vários descalabros de nossos órgãos, autarquias e instituições públicas “vai para o céu”, haja vista a forma de mal a pior com que somos tratados por eles.

Não existe amor nas altas taxas do Detran. Não existe amor quando fazem mães precisarem dormir na porta de escolas públicas para conseguir vagas para seus filhos. Não existe amor na falta de leitos em hospitais que nos fazem esperar meses a fio por uma tal “regulação”.

Crescemos com a ideia de que nós, brasileiros, seríamos cordiais. Em 1936, o sociólogo paulista Sérgio Buarque de Hollanda (1902–1982), que vem a ser o pai do cantor Chico Buarque, chamou o brasileiro de “homem cordial”. A palavra “cordial” é a mesma que dá origem a “coração” (“cordis”, em latim), o que nos faz entender, grosso modo, que somos brasileiros e agimos com e pelo coração.

De 1936 para cá muito se tem discutido sobre esse conceito, de que seríamos todos cordiais. Nos anos 2000, um outro professor, do Rio de Janeiro, João César de Castro Rocha, confirmou o que disse Sérgio Buarque, mas com uma ressalva: nós somos sim cordiais, no entanto, dentro do coração pode ter de tudo, inclusive rancor e maldade, que são, obviamente, contrários ao amor. Isso nos dá uma chave para perceber que a cordialidade brasileira não é essa maravilha toda.

O que quero dizer é que as estruturas governamentais, as leis, portarias, determinadas pessoas (ainda existem algumas abnegadas, mas que são engolidas pelo desamor que vem “de cima”) etc., que compõem os lugares feitos para nos servir, chamados de órgãos públicos (“que pertencem ao público, a uma coletividade”, segundo o dicionário Houaiss), operam contrários à fraternidade e ao amor.
Será que isso explica o fato de que toda vez que vamos fazer qualquer ato no Detran, tomamos um choque enorme com suas tarifas? Por que ao transferirmos um veículo temos que, de cara, pagar o IPVA em cota única? Sabem eles que, na maioria dos casos, o veículo nem nos pertence, que o proprietário do veículo é um banco do qual tomamos o financiamento?

Acaso lembram–se as pessoas que cuidam da educação de amor e fraternidade quando fazem aquelas mães sofridas padecerem em filas, na madrugada, para matricular seus filhos, e que, não raro, vão seguir para a jornada de trabalho diurna sem descansar?
Esquecem–se eles de amar, quando colocam pessoas enfermas meses a fio à espera de uma transferência para hospitais em outras cidades, e que nem sempre dá tempo de que essa “regulação” salve a vida daquele doente, trazendo muitas dores a seus familiares?

E a maior cara de pau, ainda, consiste em não sermos tratados com amor quase que em momento algum, mas sermos solicitados, a todo instante, para sermos amorosos com eles. Aqui vão alguns exemplos: quando nos pedem para acreditar em suas promessas de campanha; quando ganham as eleições e não cumprem suas promessas; quando fazemos alguma passeata ou reivindicação em órgãos da imprensa a respeito de algum abuso, somos chamados de intolerantes e que não estamos “respeitando o Estado de direito”.

Em resumo: solicitam que sejamos amorosos, cordiais, mas não nos dão essa valiosa moeda em troca. Se não nos dão amor por que isso é “conversa de fracote” ou porque “o Estado nada tem a ver com amor”, por que exigem de nós?
Enfim, a lista da falta de amor e fraternidade com que nos tratam é enorme. Desafio você, leitor, a pensar e fazer a sua própria. Comece pensando em quantas vezes você sofreu para tirar uma simples segunda via da carteira de trabalho ou de uma carteira de identidade. Você vai descobrir que ninguém ali vai pro céu.

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* Sergio Marcone Santos mora em Feira de Santana / Bahia. É especialista em comunicação em redes sociais pela Universidade Salvador (Unifacs) e mestrando em literatura e cultura na Universidade Federal da Bahia (PPGLitCult/UFBA)