Opinião Elson Andrade: Como os brasileiros se tornaram inquilinos no seu próprio país

É correta a adoção de política de preços de produtos nacionais, baseados em cotação internacional, aplicada a um país de baixo poder aquisitivo e moeda desvalorizada?

Isto, não é o mesmo que impedir economicamente os nativos de acessarem e consumirem bens, originários do seu próprio país?

Quando no meio da greve nacional dos caminhoneiros se diz em rede nacional aberta de TV, que a Petrobras perdeu 126 bilhões de reais, quando em verdade se trata de oscilações especulativas de preços cotados em bolsa de valores… quem realmente perde e o que de fato isto tem a ver com o dia-a-dia e balaço da empresa?

Qual o objetivo e metas estatutárias constituinte da Petrobras? Ser uma empresa nacional estatal comprometida com a economia real, essencialmente de exploração de petróleo e o abastecimento de combustíveis, no Brasil, ou mais um instrumento da Banca financista?

Num país em que cerca de 84% da arrecadação da receita do governo federal vem de grandes empresas, onde muitas destas são transnacionais… diante do atual grau de domínio econômico e dependência empresarial estrangeira… estas são perguntas complexas e longas, que dificilmente serão respondidas de forma conclusiva, sem que haja esperneio exaltados de representantes legítimos, ao meio de falsos economistas (financistas), ativistas ideológicos inconsequentes, adesistas de plantão dá direito-ostentação corrente, mergulhados em Bolhas Sociais como as que estão envoltos ultimamente.

Para que muitos consigamos entender, vou tentar de uma forma simplória apontar importantes acontecimentos, que contribuíram fortemente para a concretização do acentuado processo de exclusão, da maioria dos brasileiros, das benesses geradas pelo capitalismo forasteiro e às avessas, em curso há décadas no Brasil.

Antes de mais nada, faço aqui o registro, que não se trata de antagonismo ao sistema capitalista em si, mas sim, a forma e destinação exótica, como foi aplicado no Brasil; diferentemente da fórmula original (com pedigree) a forma praticada aqui, em controvérsia aos exemplos dos EUA, Europa e Japão, onde lá, resultou em sociedades econômicas maciçamente de classe média alta… aqui, numa sociedade de classe média baixa no Sul-Sudeste e de classe pelejante subdesenvolvidas no Norte-Nordeste.

Diferente do que pregam as bandeiras anacrônicas eleitorais da esquerda, o capitalismo foi e ainda é, um importante instrumento e modelo econômico capaz de produzir desenvolvimento espetacular em diversas épocas e nações. O problema se dá quando se convida à mesa do jogo pessoas ingênuas que não sabem do que se trata, e portanto, delegam poderes audazes aos seus “representantes”, maus-caracteres corruptos dispostos a ganhar dos dois lados e ao mesmo tempo. Inevitavelmente, o desfecho seja pela direita ou esquerda, “sempre” será considerada um golpe! (no sentido da traição e/ou malandragem finória).

Simplificadamente, diria que o capitalismo tem como força motriz principal, o capital, que uma vez empregado, espera-se um retorno. Como regra “sine qua non”, o lucro! Ou seja, produzir resultado positivo sobre o capital investido ou apenas aplicado.

A pergunta que muitos leigos fazem é: – Quem é que produz o dinheiro, o tal capital? Ou como diria os mineiros… – Onde é o ninho desse trem? A querela tem resposta complexa. Ainda mais nos dias de hoje, com a substituição do papel moeda, pelo crédito cada vez mais digital, quando mais de 98% do volume dos créditos corrente no país não mais existe fisicamente! Ou seja, além de fiduciário, o “dinheiro” assumiu de vez a forma abstrata e corre sérios riscos de virar “pó” a qualquer momento! (para os interessados responsáveis, vide fundamentação do tema – Moedas e Bancos).

A velocidade das transformações socioeconômica e financeira no mundo, foi revolucionada depois que na prática, o dinheiro perdeu a obrigação de ter lastro em ouro, (acordo internacional de Bretton Woods) quando os EUA se tornaram protagonistas hegemônicos mundial, e o dólar se estabeleceu de vez como a moeda “única” de conversão monetária do comércio mundial, e fundamentalmente quando o próprio EUA, abriram as torneiras, soltando “papel pintado” para todo lado!

Em resumo, os EUA acabara de inventar uma mágica capaz de comprar o mundo, sem precisar trabalhar em seu território ou consumir suas reservas naturais e humanas, tudo via logro monetário, baseada no “novo” dólar americano. Como diria minha vó: – ligeiro o menino!

Foi portanto, na sequência e em função disto [década de 50], que os investimentos americanos no Brasil, cresceram exponencialmente, não apenas como capital especulativo, mas como proprietário de muitas firmas, com direito a extração, fabricação e exportação mineral e de matérias primas em geral. Os EUA sozinhos, rapidamente, passaram a ser o maior consumidor e verdadeiro patrão do Brasil e do mundo. Em detrimento do empobrecimento relativo, do resto do mundo, claro.

No meio desta euforia, estonteante, onde muitos se quer sabiam de onde vinha a dinheirama, tampouco qual o cabo… foi quando vieram muitos investimentos, empréstimos e fomentos em pontos concentrados da América Latina. E numa dessas, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, receberam inúmeros aportes de capital e/ou investimentos diretos, na construção de fábricas de automóvel, elevador… além de grandiosos projetos de extração mineral no interior da Amazônia, Pará… a exemplo dos projetos: Jari, Carajás e tantos outros.

Toda esta “revolução” desenvolvimentista concentrada, atraiu para algumas poucas cidades brasileiras “beneficiadas”, uma gigantesca população rural intra e inter-regional, a qual os migrantes não tinha preparo, habilidades e conhecimentos suficientes, quiçá sabiam bem produzir e administrar o agronegócio corrente, agroexportador ou de subsistência.

Segundo a professora da USP, Ermínia Maricato, o Brasil, como os demais países da América Latina, apresentou intenso processo de urbanização, de alta concentração populacional nas cidades, em especial, na região sudeste, notadamente na segunda metade do século XX.

Em 1940 a população urbana era de 26% do total. Em 2010, já era de 85% exprimidos em menos de 1% (percentual total da mancha urbana) da área do território nacional. Esse crescimento se mostrou mais impressionante ainda se lembrarmos os números absolutos: em 1940 a população que residia nas cidades era de 19 milhões de habitantes, e em 2010 ela era de aproximadamente 160 milhões. Constatamos, portanto, que em 70 anos os assentamentos urbanos foram ampliados de forma a abrigar mais de 140 milhões de novos inábeis moradores. É muita gente… Um dos maiores deslocamento populacionais em massa do mundo e de todos os tempo, num tempo muito curto. Carecia de muito planejamento e organização, ou estar fadado a sofrer as consequências socioeconômicas, políticas e cultural com graves distorções custosa e de difícil conserto.

Como era de se esperar, a coisa traria consequência gigantesca, com distorções perigosíssimas, proporcionais as levianas e malandras concentrações de poder e renda. – “tava na cara que ia dar merda, oferecer o povo simples da roça para ser explorado nas cidades grandes, pelo sabido capital internacional”, observaram oportunamente os alunos da professora.

Para preservar seu “patrimônio”, os EUA, via CIA, montaram um verdadeiro exército de inteligência sócio-econômico-político, velado, por trás de governos em toda a América Latina. Desde o apoio técnico para o surgimento de canais de TV, rádios, revistas, partidos políticos, bancos, forças armadas, serviços de inteligência, sistemas financeiros “et cetera”.

É comum em países em desenvolvimento, existirem parentes de vítimas, na função de empresários, políticos, sindicalistas… que se posicionam diante do corpo estendido no chão, como advogados (em latim – advocatus diaboli), de plantão, de olho nos honorários da causa e ainda da sucumbência, além do espólio…

Como rescaldo disto, temos uma sociedade campeã de concentrações. Seja na distribuição espacial das pessoas no território, na distribuição da renda e das oportunidades; custoso acesso à terra, a propriedade, ao financiamento, a educação, a saúde, a segurança… enfim, a liberdade! (ressaltou o irônico cantor baiano, Tom Zé: – Foi em nome desta tal Liberdade e da Propriedade, a justificativa do golpe “militar” de 64; em resposta ao “ingênuo” apelo das senhoras católicas de família, que as véspera, marcharam pelas ruas de São Paulo, clamando pela intervenção militar). Como diz os mais velhos: – Quem primeiro valora a cara, consequência terá, do que recheia o coração!

Não bastasse esta desgraceira toda, o famigerado golpe militar de 1964, no Brasil e demais países da América Latina, (aqui já denunciado pelo IOL, de onde copio e colo), se deu por obra e graça da CIA-USA, que há tempos mantém em curso no Brasil, via cartilha do FMI, um sistema velado e perverso do sequestro de vultosos recursos do Orçamento Público Federal – propiciado pela dupla siamesa: Banco Central e Tesouro Nacional. Que consumirá somente em 2018, com o refinanciamento da dívida pública federal: R$ 1.157.215.424.954,00 (um trilhão, cento e cinquenta e sete bilhões, duzentos e quinze milhões, quatrocentos e vinte e quatro mil, novecentos e cinquenta e quatro reais) ou 50,66% do total fiscal da LOA-2018. (para os céticos, vide Lei nº 13.587, de 2 de janeiro de 2018 – Publicada no DOU de 03/01/2018).

Como se fosse pouco, (na roça diz-se que nem pancada corrige rumo de burro-burro), temos ainda outros tantos esquemas, dotados de inteligência financeira e ignorância econômica de muitos brasileiros, que não percebem as tramoias embutidas na “Supply Chain Management Global”, (a inevitável e consequente cadeias globais de suprimentos), que garantem o direcionamento, destinação e apropriações e/ou vantagens competitivas as empresas e grupos econômicos transnacionais, como é o caso do financiamento de aviões comercializados no mundo pela “nossa” Embraer, baseada em peças importadas e exportação de aeronaves apenas “embaladas” no Brasil, as custas de financiamento traiçoeiro do BNDES. Que me perdoem os leitores mais exaltados, mas, é que num site de notícias e opinião sério como esse, não se pode anotar FDPs… se não eu assentaria!

O agronegócio e empreendimentos imobiliários de grande vulto, usam como base leviana do financiamento, a poupança dos “brasileiros inconsequentes” via aplicações financeiras desoneradas como é o caso das LCAs e LCIs a um custo de 5,36% a.a. Que no caso específico do agronegócio, este chega a utilizar 73% das nossas melhores terras, sem gerar proporcional empregos no campo, além de destruir a nossa malha logística e jogar para cima a cotação do Real. Que aliás, se o dólar flutuar, fora do “range” do interesse do investidor estrangeiro, o Tesouro Nacional, via Banco Central, entra para socorre-los através dos contratos de Swap Cambial. São pelo menos cerca de 130 bilhões R$/ano, religiosamente previstos no orçamento federal. Enquanto isso a agricultura familiar de subsistência, é quem põem 70% do alimento na mesa dos brasileiros, usando de forma improvisada e caríssima de créditos, via cheque especial e cartão de crédito com juros de até 448% a.a. Abaixo, gráfico com a demonstração do acumulo de recursos que o Brasil, ao exportar commodities, “prefere” direcionar e manter no exterior, estes recursos comprando títulos do governo americano, emprestando-os a juros de cerca de 0,50% a.a.

O traçado da malha ferroviária brasileira, denuncia a vocação do escoamento da produção extrativista do interior, orientada aos portos. Toda voltada para a exportação de nossos minérios e commodities agrícolas, em detrimento da manufatura e consumo internos. Até mesmo os antropólogos do futuro, daqui a 500 anos, só pelo traçado, concluirão facilmente tal exploração… E ainda há sabichões que vem a público exigir que os brasileiros amplie e disponibilize a malha ferroviária a este fim! A custas de quem? É bom lembrar aos desavisados e cínicos de aluguel, que exportação não recolhe imposto!

Além de outras tantas malandragens, (minérios, petróleo, estradas, aeroportos, planos de saúde, bancos pseudos nacionais…), todas advogadas e gestadas, a favor da Banca, numa postura cafetina de alguns de nossos “irmãos”, que se alto intitulam bons administradores e gestores públicos eficientes… quando não passam de entreguistas cínicos, altamente astutos e objetivos comerciantes autofágicos, piratas formadores de patrimônio empalmado imoralmente acumulados em paraísos fiscais, tudo fruto deste lobby canibalista.

Conclusivamente você já percebeu, que o início do jogo (desenvolvimento econômico) acontece a partir da existência e aporte do capital inicial. Daí surgem duas opções: Condenar o Capital, como sendo ele em si, o grande culpado (tão fácil quanto estéreo) ou, inteligente e reativamente propor vir a ser o verdadeiro dono d’um novo capital e meios de produção. Por que não? Já que toda a sustentação atual do dinheiro corrente, não passa de crendice fiduciária! Onde a maioria da mão de obra, colaboradores e articuladores alocados, são brasileiros. (até então incapazes de empreenderem uma fábrica nacional de veículos leves ou até mesmo de motocicletas – nos restando as de velocípedes, enquanto não vem as dos chineses).

Aí alguns farão alertas consistentes: – brasileiro foi preparado para um não confiar no outro e sentir-se confortável em entregar a viabilidade e a gestão, aos grandes grupos internacionais e não a união dos iguais… desonestos, despreparados, parasitas, inadimplentes de carteirinha… (acusações infelizes erroneamente recepcionadas e largamente empregadas por muitos de nós).

O capital estrangeiro, bem como o sistema financeiro, têm prestado um grande serviço ao país… (é preciso considerar), o que não dá mais é pagar a este preço. O custo do conserto da viola, tem nos custado os olhos da cara e o sentido da vida.

É passada a hora dos brasileiros tomarem vergonha na cara, deixarem de ser relapsos, buscarem o fundamento das coisas e questões, prepararem-se, cumprir com as obrigações contratadas, discutir com propriedade, honestidade social, profissionalismo, além de rever as cláusulas deste grande contrato socioeconômico decadente.

Fundamentalmente, discutir os temas e questões de forma apropriada, pois:

É mentira que o Brasil extraindo petróleo (400 mil barris/dia) além do que consome, precise variar seus preços a cotação internacional. Em verdade isto está alinhado com o velho entreguismo contratado à política rapinocrata profissional, em atendimento aos interesse de alguns poucos e dispensáveis especuladores que contabilizam seus lucros em dólar!

É mentira que o agronegócio, as redes de varejo estrangeiras, a Embraer, a venda do Pré-sal… sejam tão benéficos a todos os brasileiros, conforme a propaganda paga comemora nas redes nacionais de TV e agências de notícias.

Aquilo que se mede na balança comercial, não reflete em benefícios, distribuição de renda, empregos de qualidade disponível a maioria dos nativos! Temos que aprender a fazer Balaço Social acima do balaço contábil!

No início do século XIX, o PIB americano era praticamente do tamanho do nosso. O nosso PIB era quase o dobro do PIB de Portugal. E até 1973, o PIB da China era inferior ao nosso. Porém, com a encampação do Estado brasileiros por estes advogados do diabo, políticos rapinocratas profissionais e lobistas usurpadores coloiados, que tem arrebanhado alguns dos nossos irmãos, com lavagem cerebral típica de redes sociais vadias, com discurso tolo das tais: produtividade e boa gestão, quando na verdade tem por trás um arsenal de treitas de exploração, onde o “ingênuo” braço de dentro responde a estímulos e orientações da cabeça sabida de fora. Hoje, tudo gestado indiretamente e de forma cada vez mais digital. Tudo assistido pelo arsenal estatal provedor.

As questões que ficam são:
Será que teremos projeto, motivação, capacidade organizacional, administrativa, tecnológica, de recursos humano e financeiro, educacional, estatal e político, capazes de viabilizar e empreender um novo mundo acessível, justo… diante de um mercado global altamente complexo e competitivo, no estágio em que estamos?

Caso não tenhamos a tempo, proposta, iniciativa e sabedoria coletiva, capazes; restará a Venezuela como modelo consequente?
Será que só há duas opções: 1 – escolher ser um país rico com um povo pobre, sem acesso as benesses do progresso e acesso ao mercado internacional, ou 2 – virar uma Venezuela isolada a força e/ou sabotagem?
Há de fato democracia (governo do povo) nas economias capitalistas subdesenvolvidas?
Há uma terceira via?
Há mesmo escolha?

Para os mais astutos, sugiro assistir o vídeo abaixo:
Elson Andrade – arquiteto, urbanista, empresário e pós graduando Instituto de Economia da Unicamp.