Opinião Elson Andrade: A administração pública é um jogo?

Na partida de futebol, no estádio do Barradão em Salvador, no último dia 18 de fevereiro, se enfrentaram em mais um clássico, Bahia e Vitória pelo campeonato Baiano de 2018, cujo empate favoreceria ao Vitória.

Após fazer o gol de empate, de pênalti no começo do segundo tempo, Vinícius (titular do Bahia) comemorou o gol dançando perto e voltado de forma provocativa a torcida rubro-negra (ato punitivo segundo as regras). Fernando Miguel, o goleiro do Vitória, não gostou e foi tomar satisfação. Vinicius não revidou, mas recebeu ao menos dois socos no rosto, um do Denilson e outro de Kanu… Diante das torcidas e da TV, os dois times acabaram se enfrentando, a socos e pontapés, e o campo virou um ringue coletivo.

Depois de toda a confusão, um desastre… ao menos sete jogadores foram expulsos, sendo quatro do Vitória. A regra é clara: a partida só é viável se ao menos 7 jogadores de cada time permanecer em campo.

Logo depois, numa cobrança de falta, na frente do árbitro, Bruno Bispo (titular do Vitória) supostamente orientado pelo técnico, chutou de proposito, antecipadamente a bola para longe, forçando o juiz a mostrar o segundo amarelo (por já carregar uma falta anterior), consequentemente recebeu o vermelho. Com seis jogadores em campo, o Vitória ficou inapto a continuar a partida e o juiz encerrou o jogo. Atônita, as duas torcidas voltaram para casa, com o Vitória comemorando o resultado velhaco de 1 a 1 [no tapetão].

O presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, protestou contra a decisão do Vitória de forçar a última expulsão e encerrar o jogo. “É uma vergonha. Estou assombrado. Um técnico colocar em seu currículo isso de encerrar deliberadamente para não perder um jogo! Aonde vai o futebol baiano depois dessa?

Destarte a destreza dos jogadores, frente as ordens levianas de seus “superiores” ao regramento putativo, a lição que se extrai duma situação, no mínimo vexaminosa dessas, é que na vida real, o “inesperado” sempre acontece, e diante dele, a vossa majestade, o fato; que altera substancialmente as estratégias do jogo e consequentemente as práticas e valores sustentados ao tempo e em campo. Qual seja a decisão momentânea… o tempo, que contabiliza tudo, apresentará a DRE (demonstração do resultado do exercício).

Ao largo da distinção entre Direito e Justiça, ao tratarmos de Administração Pública, na perspectiva da Constituição Federal de 1988, onde está promulgado ”Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência […]” fixa-se ali portanto, um importante marco regulatório, com a finalidade da obtenção da boa gestão pública a fim de logramos o [bem comum] (via direitos e deveres com oportunidades iguais a todos). Porém o que assistimos diariamente em campo, estáticos, [é a crescente tomada do Estado], por grupos políticos coligados, falsamente brigando entre si, pelo interesse público, quando na verdade seguem se acotovelando no exercício da posse d’um Estado cada vez mais sitiado por interesse escusos, nacionais, internacionais e até mesmo daquele nosso vizinho ou parente “desocupado”.

Segundo Luiz Philippe de Orleans e Bragança, tataraneto de D. Pedro 2º, a Republica foi um golpe de uma minoria escravocrata aliada aos grandes latifundiários, aos militares, a segmentos da Igreja e da maçonaria… e a Democracia uma farsa, quando mais parece ser uma espécie de Gaiola de Ouro (como denunciado pelo historiador e filósofo prof. da Unicamp, Leandro Karnal), que teórica e juridicamente, legitima o jogo, e afasta por desprezo, os gritos dos inconformados perdedores.

Neste mesmo script, poder-se-ia ler que a intervenção militar de 64, foi um outro golpe, previamente agendado e orquestrado, com a cabeça pensante originária do hemisfério norte, com fulcro no controle centrípeto monetário, à canalizar a geração de valor adicionado, ao dólar; quando 13 países na América Latina, deram simultâneos “golpes militares” e por conseguinte, na calada da noite, implantaram os 13 Banco Centrais… chegando a descaração do BC brasileiro ser instituído no apagar das luzes de 31 de dezembro de 1964.

Consequência disto, temos um orçamento público federal leviano e crescentemente sequestrado, que canalizas mais da metade dos recursos federais ao Sistema da Dívida Pública, já atingindo o patamar de 70% do PIB, operado por um governo federal centralizador, siamês do sistema financeiro, que sangra 62% dos tributos arreceados no conjunto dos 5.570 municípios do país. Sequestrado sim! uma vez que os municípios, ficam por fim, depois da esmoler redistribuição, com apenas 21% do bolo e com toda a carga de responsabilidades.

Brincadeira que circulou na internet esta semana, onde supostamente Neymar estaria sendo tratado em um hospital público

Jogador que segundo Alexandre Versignassi, jornalista da revista Super Interessante, traz a público que a Receita Federal fechou acordo com os advogados do boleiro: onde descontou dos R$ 180 milhões do pedido inicial ajuizado; cobrando apenas 8 milhões a título de sonegação. Ou seja, um desconto de 95,5% a um sonegador confesso e ao mesmo tempo, herói nacional. Situação restrita a “especiais”!

Enfim, e teoricamente, poderíamos falar que a sustentação temporal do valor Ético (regra prévia do jogo), está suportada pela saciedade das necessidades, desejos e demandas humanas, diante do jogo socioeconômico consequente das suas milenares relações e disputas na garantia da propriedade, produção, distribuição e consumo. E para tanto, é sábio e mister a constituição de um governo e um [Contrato Social], a garantir a coisa pública… baba, blá, blá. O que não podemos tolerar passivamente, são as constantes tapeações cínicas e desvio de conduta, onde, as partes: Torcida incondicional apaixonada tendenciosa e dividida, os times partidários, os jogadores estrela, os árbitros e suas dubiedades (conforme o freguês), os técnicos de resultado imediato e a qualquer custo, os donos de times comerciantes clandestinos e seus advogados…

Todos mascarados, com as respectivas disputas e bandeiras em jogo! Que não continuemos sustentando um campeonato irregular, velado, jogado nas surdinas, a século… de onde os mais malandros tem conseguido lograr êxito em detrimento da boa regra via uma Administração justa e realmente Pública.

Elson Andrade – arquiteto, urbanista, empresário e pós graduando Instituto de Economia da Unicamp.

Para os mais astutos, sugiro assistir o vídeo abaixo: