Filho de Pelé vira técnico de prisioneiros na cadeia enquanto cumpre pena

Edinho cumpre pena no interior de São Paulo por lavagem de dinheiro e associação ao tráfico de drogas. (Fernanda Luz/A Tribuna de Santos/Folhapress)

O ex-goleiro Edinho presta orientação a equipes da P-II, em Tremembé.
Condenado a 12 anos e dez meses de prisão por lavagem de dinheiro e associação ao tráfico de drogas, Edinho passa boa parte do tempo na quadra poliesportiva da penitenciária Dr. José Augusto César Salgado, de Tremembé, no interior paulista. É a famosa P-II. O filho de Pelé joga futebol e gosta de orientar as equipes como treinador, realizando o que fazia quando estava em liberdade. Ele também se mantém no prumo com as visitas da mulher Jessica e os grupos de oração. Pessoas próximas o definem como “espiritualizado”.

Quando o regulamento da instituição permite, mais ou menos uma hora por dia, Edinho está na quadra de cimento, aberta todos os dias. Com a bola, volta ao passado antes de ser preso. Quando joga no gol, ele se lembra da carreira no Santos. Titular, foi vice-campeão brasileiro em 1995 – fez a partida final com o Botafogo no Pacaembu. Edinho busca as lembranças ao orientar os times da P-II e tentar imprimir alguma organização tática à pelada da cadeia. Ele era técnico antes de ser preso, com passagens por Mogi Mirim e Água Santa. Na prisão, tudo é informal. Edinho dá dicas de esquemas táticos e ajuda na preparação física dos detentos. O filho de Pelé tem prestígio com os amigos.

Em janeiro do ano passado, em Três Corações (MG), ele treinava o Tricordiano, time em que seu avô, Dondinho, foi ídolo nos anos 1930 e 1940, na cidade em que Pelé nasceu. Entusiasmado, Edinho falava em reviver a memória do avô, mas a coincidência histórica durou pouco. Ele foi demitido após dois jogos. Agora, faz planos de retomar a carreira quando sair da prisão.

Em Tremembé, todos sabem que ele é filho de Pelé, mas isso não faz diferença em sua rotina. Ele tem de acordar às 5h45 como todos – o colchão finíssimo não ajuda a dormir bem. Os agentes penitenciários contam preso por preso três vezes ao dia. A primeira refeição tem pão com manteiga e café; o almoço mais comum oferece arroz, feijão, bife à rolê, rúcula e tomate. Banana e laranja compõem o cardápio diário.

Comparada às outras 86 penitenciárias do Estado, as condições até que são boas. Cabem na P-II 408 presos, mas a população atual é de 344. Edinho divide a cela com outros seis. Por questões de segurança, a Secretaria de Administração Penitenciária não informa quem são seus colegas nem a localização do cômodo, de 8 x 15 metros.

Redução de pena
O detento pode ir à biblioteca, ver filmes com comentários, fazer artesanato e teatro ou participar de cursos profissionalizantes e de ensino regular. Edinho gosta de estudar em Tremembé. Ele está na fila para trabalhar também, pois as vagas são por ordem de ingresso na prisão. As atividades são limpeza, distribuição de cartas, manutenção e cozinha. Há atividades remuneradas, prestadas às empresas dentro da P-II, como reformar carteiras. Trabalhar significa reduzir a pena.

Na igreja ecumênica são realizadas missas católicas e cultos evangélicos e Edinho participa de grupos de oração. Já são oito meses, contados hora após hora. As visitas dos familiares são importantes – a mulher, Jessica, sempre visita o marido. “No sistema carcerário, a pessoa tende a ficar emocionalmente abalada, mas o Edinho é um cara espiritualizado. Ele está razoavelmente bem”, diz o advogado Eugênio Malavasi, que o vê uma vez a cada 15 dias. A secretaria informa que Edinho tem bom comportamento.

Regime semiaberto
Edinho está completando oito meses em seu quinto período de prisão. Desde 2005, ele está perto de completar 1/6 da pena de 12 anos e dez meses. Depois de completar a sexta parte da pena, Edinho pode solicitar a progressão do regime fechado (o preso não pode sair da cadeia) para o semiaberto (o preso pode sair para trabalhar e estudar durante o dia, mas tem de voltar à noite). Os defensores estão otimistas e afirmam que ele poderá ser beneficiado nos próximos meses.

“Edinho tem totais condições de mudar o regime. Só existe um entrave na execução penal dele relacionado à falta de documentação. Logo após a Páscoa, deve ser expedida a carta de guia. Assim que ela for autuada, a petição já está pronta. Vamos ingressar com o pedido de semiliberdade”, garante o advogado Eugênio Malavasi.

O filho de Pelé reafirma inocência, se sente injustiçado e diz que não cometeu crime de lavagem de dinheiro. “Eu tenho a consciência tranquila da minha total inocência em relação às acusações que foram feitas”, disse em janeiro de 2017.

Operação Indra
Edinho foi preso com outras 17 pessoas pela Operação Indra em junho de 2005, acusado de ligação com uma organização de tráfico de drogas comandada por Ronaldo Duarte Barsott, o Naldinho, na Baixada Santista. Sua pena foi de 33 anos e quatro meses de prisão.

Ele chegou a ser preso, mas depois de seis meses em prisão provisória, foi solto com liminar em habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF). Edinho permaneceu em liberdade, alternando idas e vindas à cadeia, por ser possível a apresentação de recursos. No dia 23 de fevereiro de 2017, a 14.ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a condenação, mas reduziu a pena para 12 anos e dez meses, em regime fechado. Edinho foi obrigado a se apresentar. Foi detido em julho do ano passado, após a 14.ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) decidir por rejeitar as apelações da defesa. Desde então, está preso.

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